Capítulo II



Capítulo 2

O “Cheiro” das coisas

 

Diferente de todo mundo da escola, eu não estudo desde pequeno, para ser mais específico, eu não me lembro de nada do meu passado… Tirando esses últimos 8 anos… A minha primeira memória é um pouco embaçada. Eu estava caído sobre um bocado de cacos de vidros e tinha um líquido denso me molhando… Aquele lugar fedia… A carniça e a hospital… Estava tudo vermelho… Apesar de não me lembrar do que houve antes, eu estava com medo. Meu corpo estava fraco e eu mal conseguia me levantar… Mas eu sentia um cheiro de pólvora mais a frente, atrás de uma porta de metal… Com a pouca determinação que tinha eu segui em frente ignorando meus pés sendo cortados pelo vidro… Quando cheguei à porta ela estava tão fria…

Eu podia ouvir o barulho de tiros, gritos e grunhidos… Mas o que me incomodava não era o barulho vindo de trás da porta, nem mesmo os corpos dentro da sala onde eu estava… E sim a ideia de que: O que causou a morte de todos naquela sala… Ainda estar lá dentro…

Eu virei minha cabeça na esperança de não ver nada mais além do que já tinha visto… Porém eu vi uma vasta escuridão… Uma escuridão viva! Com olhos púrpuros escuros! Ele abriu uma boca babando sangue daqueles que ele mordeu… E eu seria o próximo… Eu não tinha forças para fugir nem para gritar por socorro. Então simplesmente deitei e esperei pelo meu destino…

Destino esse que não era o que eu esperava! Algum “ogro” estourou a parede do meu lado, espalhando poeira por todo canto e um cheiro forte de pólvora. Da fumaça surgiu alguém, que no futuro, seria meu tutor de guerra: Haseo.

Ele simplesmente cuspiu fora seu cigarro e gritou enquanto dava um segundo tiro explosivo com uma bazuca na cara do monstro.

— Tem algum maldito vivo aqui ainda?!

Eu, com as poucas forças que tinha ergui minha mão em sua direção… Aparentemente ele não notou minha presença… E já ia embora… Na despedida da minha esperança eu deixei minha mão cair… Um bracelete de metal que estava no meu fino braço fez barulho ao cair no chão. Haseo escutou e então me viu… Me colocou em seus ombros e saiu reclamando algo como: “Eu esperava ser o herói de uma princesa e acabo sendo babá de um moleque! Mas que dia de merda!”

Antes de eu apagar eu vi o que seria os resquícios de alguns soldados… Mas o que eu estava fazendo em uma instalação militar? E ainda… Quando ela estava sobre ataque…

Quando acordei eu estava em uma cama, cheio de ataduras no corpo todo. Eu me senti um pouco baqueado e confuso… E por algum motivo obscuro a cama estava se mexendo… Estava muito escuro e eu ainda estava um pouco sonolento, mas depois de um tempo eu percebi que estava em um caminhão em movimento. Ainda estava com o bracelete de metal… Parecia ter algo escrito, mas não conseguia ler… No momento que eu tentei sair da cama alguém colocou a mão sobre o meu ombro e resmungou algo…

Eu gelei, não sei o porquê, estava mais aterrorizado agora do que quando vi aquele monstro! Do nada, aquela mão começou a descer e tentar me abraçar! Pulei da cama no susto! Quando me virei para ver quem era, uma silhueta de uma mulher começou a se levantar e eu tive a ligeira impressão que os olhos dela estavam piscando! Ela começou a rir de uma forma assustadora e pervertida e disse:

— Volte aqui. Porque está fugindo dessa pobre Shoutacon? Volte aqui com a Tat One-chan! Hehehehe…

Eu gritei de pavor e o caminhão deu uma sacudida brusca, depois continuou normalmente, eu escutei uma porta sendo aberta e as luzes se acenderam. Ao meu lado esquerdo a porta da saída da carroceria, ao lado direito um homem jovem com mais ou menos 19 anos com um cigarro na boca. Na minha frente estava uma mulher morena com o cabelo bagunçado e sujo de fuligem, ela tinha um sorriso bobo na cara e parecia babar.

O homem, que a voz eu reconheci sendo a mesma do que cara que me salvou, olhou para a mulher e perguntou:

— Tat… Você não fez nada de… Anormal… Com esse garoto não é?

— Que isso Haseo-senpai! Claro que não! Apesar de não parecer eu sou uma mulher descente sabia?! Agora… Se ele me deixar brincar com ele… Hehehehehe…

— Garoto… Quer ficar aqui desse lado?

Não pensei duas vezes e concordei com a cabeça e corri para o lado daquele cara. A tal de Tat fez uma cara de triste e falou algo como: “Logo agora? Depois de tudo que passamos queria um pouco de diversão… Maldade!”

No fundo da carroceria, no lugar onde estava o tal de Haseo, tinha uma sala iluminada com tipo de um sofá dos dois lados e uma mesa anexada no meio. Nessa sala tinha mais dois caras… Eles estavam sujos de fuligem e manchas de sangue, um estava com os olhos inchados, o outro estava cobrindo o rosto. Eles não falaram nada quando eu e o Haseo entramos…

Eu simplesmente sentei no cantinho e fiquei lá. Se fosse parar para pensar, todos estavam sujos e com uma aparência destruída, a Tat não estava diferente. Provavelmente todos eles estavam brigando contra aqueles monstros… O silêncio era massacrante… O ar estava pesado… Na tentativa de quebrar o silêncio eu comecei a falar com o Haseo:

— Quem são vocês?

— Ah! A gente não se apresentou não é moleque? Eu sou o Haseo, aquele chorão de cabeça para cima é o JuaxXx e o com a mão no rosto é o Van. E você?

— Eu sou… Eu não sei quem sou…

Nesse momento eu olhei para o meu bracelete de metal… Nele estava escrito: LU-WARGO… Eu pensei: “Que diabos de nome é esse?!” Enquanto eu me questionava sobre a “originalidade” desse nome, Haseo olhou para o meu bracelete e resmungou:

— Lu… Lu… Lucas? Que tal Lucas?

— Lucas?

— Sim, o seu nome. Não parece bom?

Eu fiquei feliz, não sei por quê. Eu tinha um nome!

— Sim! Eu gostei!

— Ótimo, então seu nome de agora em diante é Lucas Wargo!

— Eu preciso desse sobrenome feio?!

— Hahaha, se você arrumar uma família para onde vamos, você poderá mudar. Até lá, você será um Wargo!

— Para onde estamos indo?

— Para a base central… Da GodHandS… Sua nova casa.

De certa forma eu estava ansioso! Eu não conhecia muitas coisas, nem sobre mim! Mas eu já tinha um nome e uma casa! Mesmo todos naquele lugar estando tristes, eu estava realmente feliz…

Eu acabei caindo no sono novamente. Fui acordado pela Tat dizendo que tínhamos chegado. Eu levantei de imediato, minha visão até deu uma oscilada, eu estava em casa! Sai correndo para fora do veículo, a luz forte do Sol me deixou cego momentaneamente. Mas o cheiro daquele lugar era agradável, vívido e… Agressivo? Quando voltei a enxergar direito percebi que estava dentro de um muro de metal. Tinha casas, barracas e prédios espalhados de forma aleatória por todo canto. Existiam muitos veículos e soldados… Eu estava em uma base militar.

A Tat me agarrou por trás e me levantou para me pôr em seus ombros. Eu conseguia ver o Haseo, JuaxXx, Van e mais um na frente do caminhão onde viajamos. Tat foi comigo até lá… Eles estavam discutindo:

— Danser! ELA NÃO ESTÁ EM NENHUM LUGAR!

— Calma Van! O caminhão dela ainda não deve ter chegado! Olha! – Ele apontou para os outros caminhões! – Muita pouca gente voltou, não é possível que tenha só isso de sobreviventes! Eles devem ter ido para outro acampamento para confundir os Leechers!

— Que outro acampamento? Eu não conheço mais nenhum acampamento da inteligência além dos quais nós estávamos…

— JuaxXx… Nós somos somente alunos do 3º ano… Não nos informariam sobre todos os acampamentos, não é Haseo?

— Sinto muito Danser, mas não há. Aquele era o único. Vocês já devem se acostumar com a ideia da morte da Ricalna…

Nesse momento Van deu um soco na cara do Haseo. A Tat então tampou meus olhos com uma mão e disse com uma voz gentil:

— É melhor você não ver esse tipo de coisa… Deixa eu te levar para um lugar melhor…

Então ela me levou para longe… Até em frente de uma barraca. Ela me pós no chão e sorriu de uma forma triste, me deu o seu casaco militar, que em mim era praticamente um vestido que se arrastava no chão, e me disse baixinho:

— Aconselho a não mostrar para mais ninguém esse bracelete de metal, ok? Dentro dessa barraca você fará um monte de amiguinhos! Mais tarde eu volto a falar com você, tudo bem?

Eu acenei com a cabeça e ela esperou eu entrar na barraca. Nela tinha um monte de crianças diferentes, mas tinha um grupo que me chamou a atenção porque estavam tão sujos quanto eu. Eu fui correndo na direção deles, e acabei tropeçando no casaco e caindo encima de uma delas. Eu me levantei e pedi desculpas antes de ver quem era… Quando levantei a cabeça vi um menino de olhos puxados, cabelos negros compridos e uma cara séria…

— O que você pensa que está fazendo?

— Pedindo desculpas por ter caído em você?

— Isso eu estou vendo seu idiota! E cada um que me aparece… Então… Quem é você?

— Lucas Wa… Lucas! Só Lucas!

— “Só Lucas”? Que nome ridículo!

— Não “Só Lucas”, meu nome é somente LUCAS!

— A ta. Eu sou Felipe, bem-vindo ao grupo dos malditos.

Grupo dos “Malditos”… Jeito estranho de proclamar um grupo. Apesar de que esse grupo parecia estranho só no visual mesmo… No fundo tinha um cara mais alto de mais ou menos uns 15 anos, do lado dele tinha um gordinho de cara emburrada e segurando a mão do gordinho tinha uma garota… Garoto… Não sei… Sentado no chão tinha um garoto com um rosto um pouco sombrio e, por fim, um garoto mulato que parecia não ter mínima ideia onde estava. Naquele momento eu não sabia, mas eles seriam meus melhores amigos a vida inteira.

— Então, Lucas, você também não tem família?

— Família? Acho que não Felipe…

— Acha? Você é estranho… Nesse grupo ninguém tem mais família…

Esses malditos sem família seriam em ordem, Felipe, Shioon, Bego, Naga, Dark e Ryu. A gente estava conversando tranquilamente até um garoto começar a fazer “barulho”…

— Porque estamos reunidos aqui como ratos de laboratórios esperando para serem executados?! Eu quero meus pais! Não quero ficar aqui parado, enquanto eles estão lá fora em perigo! E esses soldados de merda não vão atrás deles! Cansei disso! To vazando!

Dito isso ele saiu da barraca a passos largos… Naquela época ele era simplesmente impertinente, mas hoje ele é um grande estrategista e soldado… Mas não do exército, e sim da sua própria gangue: A Gangue do Velotrol. De forma idealista ele se recusa com o modelo do exército. Para ele é indispensável que cada membro do seu grupo seja treinado primeiramente a sobreviver, antes de aprenderem a matar. O motivo do nome da gangue, apesar de bem simples, é que todos os membros são gênios na arte de melhora de veículos. Todos possuem uma máquina potente de movimento, e o líder possui um Velotrol, quase que demoníaco, o Soul Knight.

Para você ter noção as rodas traseiras da sua máquina tem 1,5 metros e a dianteira tem 2 metros! O Velotrol chega a 150 km/h em questão de segundos! O ronco do motor chega a assustar até os Leechers. Atrás do assento do líder possui três armas, uma bazuca, uma espingarda e uma lança com a ponta em formato de lua crescente. E para complementar, não sei como, mas ele conseguiu fazer o maldito do veículo de Grafeno! Para você ter noção, para perfurar uma folha de Grafeno é necessário um elefante equilibrado em cima de um lápis!

O nome do dono da gangue e do melhor veículo de guerra era, quando criança, Diego. Mas depois que ele saiu daquela barraca ele passaria a ser conhecido como: D&D, ou para os mais preguiçosos, Ded.

Para ser sincero, não tenho mais o que contar sobre o meu passado. Depois de a Tat me deixar junto com as outras crianças, nós fomos levados, cada um, para uma família. Fomos para a mesma escola e crescemos juntos. Nunca voltei a ver a Tat, aparentemente ela se transferiu para um acampamento que foi criado quatro anos depois do ocorrido. Danser se tornou professor depois de seis anos. E a tal da Ricalna, nunca voltou.

Até hoje eu tenho a pulseira de metal, lógico que não cabe no meu pulso, eu a uso presa em um cordão, escondida, embaixo da blusa. Como a Tat pediu, ninguém nunca mais o viu. Nem mesmo o pessoal da sala sabe dele… Tirando o JuaxXx, Van e o Haseo. Nunca descobri minha origem, não importava o quanto eu a buscava… Mas descobri sobre a minha habilidade de “ler os cheiros”. Soa meio estranho eu falando assim, mas basicamente eu consigo sentir um cheiro vindo da essência tanto do passado quanto do presente nas pessoas. É como se eu tivesse um olfato apurado de cachorro. Existem pessoas que dizem ver a cor da alma das pessoas… Eu sinto o cheiro dessas almas e decifro. Quando falei disso com o Haseo ele simplesmente coçou a cabeça e me disse para parar de cheirar drogas, elas eram perigosas.

 

 

Este guia é uma iniciativa da GodHandS Fansub.