Capítulo I – O plano

O dia que se seguiu a discussão estava claro, com uma temperatura agradável. Mas a mente de muita gente estava tempestuosa…

– Me desculpe Ran-neechan. Eu tinha esquecido que o Hakase tinha pedido para eu lhe enviar uns arquivos que estavam no computador dele. E como ficou muito tarde, acabei dormindo aqui.

– Dá próxima vez me avisa pessoalmente Conan-kun! Não deixando um bilhetinho… E o Hakase também… Pedindo esses favores… Enfim, de acordo com Otou-san, ele vai precisar falar com o Shinichi… Mas o telefone anda dando desligado ou fora de área… Sabe de algo Conan-kun?

“Saber eu sei… Eu desliguei o telefone ontem após ouvir pelo microfone o Ossan me mencionando.” – Não sei Ran-neechan… Bem, eu e a Haibara vamos nos encontrar com o Hakase no simpósio de ciências, se precisar de algo liga para ele.

– Eh?! Como assim Conan… Desligou… Môoo! O que anda acontecendo com esse garoto?!

O garoto guardou a gravata borboleta moduladora de voz no bolso, ajeitou a gola da roupa e suspirou fundo. Ele estava pronto. Foi a escolha que ele tomou. Colocou os óculos escuro e um chapéu. Seu destino estava decidido, mas ao chegar a porta ele sentiu-se obrigado a parar. A chance de dar errado era altíssima…

– Estou saindo Haibara! – Gritou ele. Mas não ouviu resposta.

“Ela ainda deve estar revoltada com essa minha decisão…” Pensou ele deixando um sorriso abrir… “E mesmo assim ela me deu o antidoto… Bem, mesmo que eu mandasse uma carta pública aceitando a proposta e elaborando uma armadilha, a B.O. ainda procuraria saber inicialmente a veracidade da carta, o que colocaria as pessoas próximas de mim em perigo… Onde eu me escondi por tanto tempo, etc… Me apresentando fará com que eles foquem em mim em específico, e tirando a possibilidade inicial de me procurarem. Após isso tenho que ter certeza, de deixar claro, publicamente, que não me encontro com ninguém…”

Na hora que Shinichi abriu a porta adjunto com um suspiro, ele ouviu vindo do fundo da casa:

– Parado ai Kudo-kun!

– O que foi agora Haiba… – A voz dele foi cortada pelo que viu. – O que você está planejando?

– Ir com você. Se você vai colocar a sua vida na linha, nada mais natural que eu faça o mesmo, não? – Disse a mulher com um sorriso debochado. Haibara também tinha tomado o antidoto.

– Eu não estou em posição de reclamar, não é?

– Não, não está.

– Okay… Coloque os óculos escuros e um chapéu… Não saia do meu lado… E não posso ficar te chamando de Haibara também… Miyano?

– Shiho, se for para me chamar pelo meu verdadeiro nome, prefiro que não seja o da família… – Proclamou ela tirando um chapéu e óculos da bolsa.

– Ok…

Dito isso, os dois foram para fora da casa e entraram no taxi que já esperava por Kudo, o destino deles? Um estúdio de T.V.


Demorou um pouco para eles chegarem ao prédio do estúdio, eles saíram no horário do rush, o que incomodava o detetive que estava se remoendo em pressa. Shiho queria poder dizer algo para acalmá-lo, mas as constantes mensagens que ele enviava do celular pré-pago antigo fez ela perceber que ele estava pensando em um plano elaborado com alguém… Mas quem?

Assim que chegaram ele foi em passos rápidos até a recepção, e antes mesmo de chegar ao balcão, começou a falar:

– O direto de programação Takeda está em que andar?!

A recepcionista ficou sem reação, não só pela aproximação repentina, mas pela aparência daqueles que a abordaram. Porém seu lado profissional já dizia como reagir.

– Sinto muito, mas o senhor Takeda encontra-se em reunião. – Disse ela com um sorriso.

– Eu perguntei o andar, não o que ele está fazendo.

– Sinto muito, mas não posso lhe dar essa informação. Se você quiser marcar um hora… – Kudo bateu a mão no balcão e tirou os óculos.

– Eu sou o horário.

A recepcionista ficou sem ar. Ela o reconheceu de imediato. Pegou o telefone e enquanto digitava um número respondeu em um sorriso:

– 12º andar, sala 1225!

– Obrigado. – Colocando o óculos, Kudo foi em direção a sua parceira que já estava segurando o elevador. – 12º andar.

– Eu ouvi… Bela atuação de durão. – Disse ela dando um leve sorriso.

– Calada…

– “Eu sou o horário.”

– Calada!

Lá em cima, na sala 1225, uma conversa já seguia.

– Alguma outra notícia? Email? Carta? Sinal de fumaça?! Qualquer coisa! Anteontem nós fomos abençoados com uma carta de desafio para o Kudo Shinichi, mas até agora, nenhuma resposta ou nova informação direta, a única coisa que temos foi a garota do colégio dele que foi morta… Qual o nome mesmo? Fumi Tadesuko? – Dizia o diretor Takeda da T.V. Tokyo em uma reunião com sua equipe. – A polícia não está dando nenhuma informação pública ainda, mas muito provavelmente ela tem relação à carta de desafio… Hum?

Seu diálogo foi interrompido por um telefonema.

– Saya? Estou ocupado agor… O QUE?! ÓTIMO! MUITO OBRIGADO! – Assim que desligou o telefone ele começou a rir.

– O que aconteceu Sr. Takeda? – Perguntou um dos membros da mesa de reunião.

– Deus sorrindo para nós meu caro! – Disse ele abrindo um largo sorriso. – Estejam preparados, teremos trabalho para fazer. Mas antes, só temos que ficar sentados aqui e esperar…

Eles não entenderam de imediato, mas dentro de 30 segundos a porta da sala foi aberta de forma brusca.

– Creio que posso pular a introdução e ir direto para os negócios, certo?

– Mas é claro, Kudo Shinichi! – Todos na sala ficaram sem ar ao ver o rapaz que tinha entrado violentamente no recinto tirar o chapéu e óculos. – Então, o que posso fazer pelo detetive desafiado?

– Uma mudança na sua programação, para agora. Tenho uma resposta para dar…


Todos os preparativos estavam a postos, o assistente de palco deu a informação de que ele estaria no ar em 1 minuto, uma última mensagem, todos a postos. E começa a jogada do time “azul”.

– Bom dia, aqui quem fala é a reporte Inogima e me desculpem por interromper a sua programação. Venho trazendo uma atualização bombástica da carta de desafio de ontem, ou melhor, venho trazendo a pessoa desafiada, Kudo Shinichi. – Nesse momento a apresentadora estendeu a mão em direção ao rapaz que entrou em cena com uma cara extremamente séria. Sua aparição tirou o ar de muita gente, gritos de muitas outras, olhares malignos de alguns…

– Muito obrigado Inogima. – Disse o rapaz dando uma leve reverência a apresentadora. – Serei breve… Eu aceito o desafio posto a mim, porém, com algumas condições. Me apresento em diversas desvantagens nesse… “Jogo”… Não sei nem se quer do que lhe chamar, além de “desafiador”. As regras do embate não foram debatidas, logo não há partida. Estou lhe chamando para organizarmos esse duelo, hoje, as 20 horas, na Beika Bridge. Se você não aparecer, considerarei desistência de sua parte. – Com uma última reverência ele começou a se retirar do palco, deixando a apresentadora um pouco atônita, mas após o choque, ela prosseguiu com o seu trabalho.

O Sr. Takeda já ia agradecer o privilégio, mas Kudo cortou o assunto pedindo um favor… Uma sala de reunião foi separada e após um tempo, a polícia de Tokyo chegou. Megure e Kogoro estavam possessos, mas tentaram manter a compostura que ia se esvaindo conforme a equipe da T.V. Tokyo ia guiando eles pelos corredores até a sala preparada com antecedência. E para piorar, ao entrar nela, a pessoa que eles procuravam não se encontrava, mas a mensagem era que eles esperassem um pouco. Após se sentarem, Megure, Takagi, Satou e Kogoro esperaram ficarem a sós para poder finalmente abrirem a boca.

– O que o Kudo-kun está pensando?! – Questionou a Satou já batendo na mesa com os punhos.

– Calma Satou-san! Tenho certeza que ele tem um plano. – Disse Takagi tentando acalma-la.

– Rum! Duvido… Aposto que aquele moleque só está querendo se mostrar! – Brandiu Kogoro.

– Se fosse o antigo Kudo-kun concordaria contigo Mouri-kun… Mas hoje já não tenho tanta certeza… – Concluiu Megure.

– E agradeço o voto de confiança Megure. – Disse uma voz conhecida por todos na sala que entrava seguido de uma mulher misteriosa.

– Kudo-kun! Você precisa explicar o que está acontecendo! – Disse Megure se levantando.

– E não foi para isso que te mandei uma mensagem pedindo para que viesse? Ainda deixei claro para ficar ligado na T.V. Tokyo para evitar ter que falar a mesma coisa duas vezes…

– Isso não é uma brincadeira moleque! – Gritou Mouri rangendo os dentes.

– Eu pareço estar brincando? – Disse Kudo com uma expressão séria o encarando, tão seca que fez os adultos se silenciarem para ouvi-lo. – Megure, o motivo deu ter lhe chamado aqui é para explicar como você deve aproveitar essa oportunidade única que estou lhe dando… Eu vou precisar que você isole a ponte… Nenhum carro, pessoa ou policial deverá estar nela. Somente eu.

– E você acha que um cara que matou uma estudante de forma tão brutal iria aparecer com uma armadilha tão óbvia? – Perguntou Satou.

– Não acho. Tenho certeza.

– Como Kudo-kun? – Perguntou Takagi.

– Uma pessoa que manda uma carta pública de desafio para uma das maiores emissoras do país, deixa uma carta de desafio sigilosa para Kaitou Kid e cria um assassinato tão escandaloso com certeza quer atenção. Quer ser vista. E eu estou dando essa oportunidade de ouro. Mas não acho que ela será 100% descuidada. Por isso peço para deixar a ponte completamente vazia, além disso, sem carro de polícia a vista, tirando dos policiais que iriam isolar a ponte. Vão à paisana.

– Moleque… Como você sabe da carta ao Kaitou? Isso é uma informação confidencial que somente a polícia e eu deveríamos saber. – Disse Kogoro cerrando os olhos.

– Tenho minhas fontes Ossan. – Respondeu Shinichi dando de ombros, o que irritou o homem profundamente. – Enfim… Eu realmente não poderei dar uma oportunidade tão boa quanto essa novamente… Estejam preparados para segui-lo como seguem o Kaitou. Provavelmente ele tentará fugir pelo ar…

Dizendo essas palavras ele se virou e começou a ir em direção a porta.

– Espera Kudou-kun! Mesmo se o assassino aceitar a provocação e ir, você não estará correndo muito perigo?! – Questionou Satou se levantando.

Porém, Shinichi só deu uma parada enquanto ela falava, suspirou e finalizou:

– Tenho que preparar umas contramedidas… – Ele então começou a abrir a porta, e ainda segurando a maçaneta continuou. – Estou contando com vocês…

Com isso ele foi embora, deixando para a parceira fechar a porta com uma pequena reverência de despedida. Todos estavam mudos e boquiabertos, precisou do Takagi quebrar o silêncio:

– Quem era a moça?


A tarde passou rápido para todos, principalmente para os diretamente envolvidos na preparação daquela noite. As 19 horas, a ponte já estava interditada com pessoas nos dois extremos ansiosas para o que estava para acontecer, como iria acontecer… E essas dúvidas se estendiam para todos, até mesmo aqueles que guardavam o lugar, disfarçados em grande maioria de transeuntes. Mas no momento a maior pergunta que irritava o inspetor da polícia era:

– Cadê o Kudo-kun?! – Gritou ele para seus companheiros de trabalho que responderam com olhos perdidos.

Ele já ia começar a soltar fumaça da cabeça, quando uma gritaria o puxou a atenção.  O povo que esperava nas bordas da ponte estava em euforia, porque no centro da construção, um jovem estava em pé.

– Quando o Kudo-kun chegou ali?!

– Aparentemente ele simplesmente passou pela barreira e foi andando até ali.- Respondeu Takagi.

– Vocês estão vendo as “contramedidas” dele? – Questionou Satou. Essa pergunta fez todos tentarem perceber qualquer coisa com o garoto, mas a distância dificultava o trabalho, mas aparentava que ele estava normal. O que os deixaram preocupados e elevarem mais ainda a guarda, se espalharam e estavam prontos para pegar o criminoso na primeira oportunidade.

Mal sabiam as pessoas que ali estavam, que o “desafiante” era somente uma das preocupações. Kudo estava na mira de uma arma, constantemente, mas ela não atirava ainda porque era necessário ter algumas respostas. E mata-lo não daria elas, mas na pior hipótese, ele tinha que ser abatido.

Infelizmente, ou felizmente, o horário de 20horas não foi respeitado. A multidão se agitou novamente, do céu veio como uma grande ave negra que pousou em umas das extremidades da ponte.

De onde as pessoas estavam mal dava para ver os dois, muito menos ouvir. Mas aparentemente Shinichi estava dizendo algo enquanto lentamente se afastava, em contrapartida, o homem vestido de preto se aproximava gesticulando com as mãos, fazendo movimentos abruptos. Todos estavam em silencio tentando pegar qualquer palavra que fosse, os policiais em meio à multidão esperando a hora de ir atrás do vilão, prontos para atirar se necessário.

Todos ficaram tensos quando o jovem detetive chegou até o outro limite da ponte. Contra a queda na água o rapaz abriu os braços, demonstrando sua primeira gesticulação. O grande homem que o encarava então guardou as mãos dentro do casaco e começou a correr rapidamente tirando um revolver do sobretudo, e retirando de todos um grito retido na garganta, um ar preso, uma batida no coração não dada. A polícia já estava sacando suas armas pronta para atirar, mas a sua reação foi muito lenta para esse inesperado.

Quando chegou próximo ao colegial, o homem pulou com um chute e atirando ao mesmo tempo… E tudo aquilo que havia sido retirado no instante anterior foi devolvido… O grito de pavor, o ar preso, a batida acelerada do coração… E enquanto o pé empurrava o corpo do garoto para o rio, um homem de preto estendia seu sobretudo em uma asa-delta, da mesma forma que ele veio, instantes subsequentes o barulho de corpo caindo na água se fez ouvir, e junto com ele, uma voz familiar que gritava por seu nome.

“SHINICHI!”

A voz machucava seu peito mais que uma bala de revolver…

– VAMOS ATRÁS DELE! – Gritou Megure correndo para o seu carro, seguido de Mouri. Dentro dele, já dando a largada acelerada, o rosto do amigo já fazia a pergunta que Megure estava pronto para responder. – Eu não irei desperdiçar a chance única que o Kudo-kun me deu!


A perseguição se estendia dos dois lados do rio, Megure e Kogoro de um lado, Saitou e Takagi do outro.

– Takagi, você consegue atirar na asa delta?! – Gritou Saitou enquanto manobrava com maestria.

– É muito arriscado a essa distância e velocidade. – Disse o detetive pegando revolver esperando somente uma única chance.

A corrida era louca e marcava a cidade com o barulho ensurdecedor das sirenes. E apesar do som ser mais perturbador a aqueles em seus respectivos carros, sua mente só possuía pensamentos ligados ao caso… “Porque Kudo Shinichi escolheu esse meio?”; “O que realmente aconteceu na ponte?”; “Quem é esse homem?!”; E por fim… “Não está muito rápido?”

Não importa a força do vendo, a asa delta não chegaria a essa velocidade… Os carros estavam literalmente dando seu melhor, com ajuda da sirene policial que ajuda na limpeza da via e, além de tudo, outra questão suspeita era que ele estava indo reto… Normalmente se escolheria vias complexas para poder despistar a polícia, mas isso não estava sendo feito…

– Não me diga…?! ATIRE TAKAGI! – Gritou Saitou.

– Hum? Mas ainda… – Ia questionar o parceiro.

– EU ASSUMO A RESPONSABILIDADE! SÓ ATIRE!

– Se é assim, eu assumo a responsabilidade também…

Com essas palavras o homem deu dois tiros em direção a asa delta negra, surpreendendo os homens que estavam participando desse rally do outro lado do rio, mas o que fez o suor frio cair foi… Fumaça… O vulto negro soltou uma pequena explosão, e soltando fumaça tão negra quanto seu tecido começou a perder altura e cair em direção ao lado que estava Megure e Mouri, que desaceleravam o carro conforme o necessário.

– Por favor… Não me diga que… – Implorou Megure.

A asa delta tinha caído em meio a rua, em frente ao carro de Megure. Ele saíra do veículo e sacará sua arma, Mouri o acompanhou, porém de uma distância um pouco maior, eles começaram a avançar em direção ao alvo… Mas sem movimentos suspeitos… O temor se tornou real…

– É um motor… Fomos enganados… – Dito isso o inspetor deu um murro no chão que provavelmente cortou sua pele. – Kudou…

Saitou e Takagi chegaram um pouco depois, eles iriam começar sua explicação, mas a posição que estava Meguri já explicava tudo.

– Vamos voltar Megure. – Disse Mouri. – Para ponte. O moleque deve ter deixado alguma pista. E eu duvido que ele esteja morto.

– Ah… Você está certo… Takagi, Saitou! – Gritou o grande homem enquanto se levantava.

– HAI! – Responderam com firmeza, enquanto começavam a isolar a área. Mais tarde a equipe forense iria investigar o objeto sem quaisquer frutos…


Voltando para logo após o tiro acertar seu alvo, os dois começaram a cair da ponte. Kuro soltara sua capa para distrair a polícia, e sua roupa negra faria com que ele desaparece na distância. Seus olhos estavam focados no jovem a sua frente… Que chegando perto da água… Sorriu?

Aparentemente ele estava segurando uma corda, pega provavelmente ao cair da ponte, que o fez ser jogado para o lado de debaixo da instalação. Kuro caiu na água… Mas antes de cair ele viu um barco escondido lá embaixo e então, sem submergir, ele nadou em sua direção.

– Perigoso, perigoso… – Disse o jovem detetive ao posar no barco. – Se ele tivesse atirado em minha cabeça, eu teria voltado para te assombrar, tantei-san. – Disse ele abrindo um sorriso jocoso para uma das pessoas no local.

– Bem, seria difícil reviver Kudou Shinichi se isso acontecesse… Pelo menos você morreria como um herói ao em vez de um ladrão, Kaitou Kid. – Disse alguém com uma aparência idêntica ao jovem, porém de roupa escura.

– Oi oi, nem brinque com isso, prefiro ser um ladrão vivo que um herói morto. – Disse ele abrindo os braços.

– No seu caso, eu concordo com isso… Mas diga como foi… – A fala do “Shinichi de preto” foi interrompida por um vulto que subia a embarcação lentamente, encharcando o chão.

Kuro tinha subido no local, e não estava nem um pouco feliz. Ele pegou sua arma, deu uma balançada nela, suspirou e a guardou.

– Quem diria… Kaitou Kid e Kudou Shinichi são aliados… Se eu soubesse disso, não teria mandado uma carta anônima para o ladrão do luar. Ah! Espera, isso ainda causaria essa situação, não é mesmo?! – Ele fingiu rir enquanto tirava o cabelo do rosto. Revelando sua aparência jovial, na casa dos 25 anos, barba por fazer, olhos lilás, cabelos escuros sedosos, nariz alinhado perfeitamente no centro do rosto com uma pequena rigidez quadricular, seus lábios finos, porém largos ajudavam no kit, mas dificultavam na identificação da nacionalidade.

– Se você está aqui, dizendo essas coisas, devo assumir que aceitou as condições, não é mesmo? – Disse Shinichi, o verdadeiro.

– Que escolha eu tenho?! Depois daquela conversa ridícula…

– Ora ora, você por acaso enlouqueceu, Kudou Shinichi?! – Disse Kuro logo após pousar.

            – Suas ações impensadas me forçaram a isso. – Disse Kaitou Kid que estava ‘disfarçado’ de Kudou no momento. Após dizer essa frase, ele começou sua caminhada lenta para a borda da ponte.

            – Oi oi! Não vá colocando a culpa em mim! Eu só lhe chamei para um jogo… – Disse ele colocando as mãos ao ar e balançando a cabeça para os dois lados. – E você me chama para um lugar que diz ‘me mate’? O que você quer?

            – Exatamente isso. – Respondeu o jovem com um sorriso ligeiro.

            – HAM?! – Brandiu Kuro enquanto curvava o corpo e abria os braços de forma escandalosa. – O que isso significa?! Você enlouqueceu?!

            – Você que é o louco aqui… – Kuro soltou um ‘verdade’ com a expressão facial mais limpa e pura possível, com o corpo que se endireitou somente para essa palavra. – Você não confirmou minha situação, não imaginou porque estava ‘desaparecido’?

            – Não ligo. – Disse ele fazendo um gesto com os ombros.

            – Para um grupo de pessoas, eu estou morto… E você me forçando reviver e botar em risco diversas pessoas. – Disse o jovem cerrando os olhos e já chegando perto do fim de seu trajeto.

            – Grupo… Entendo… Foi mal, foi mal, realmente, erro meu… – Disse ele juntando as mãos e dando uma leve piscadela com o olho esquerdo. – Mas então, você tem um colete aí, não é?

            – Sim. – Disse Kaitou soltando um sorriso e abrindo as mãos.”

            – Bem, como você prometeu, nós vamos decidir as regras do jogo agora. Fora da visão das câmeras… E se possível, Kaitou, gostaria que você se retirasse. O que planejo para você é algo diferente… Mas não se preocupe, direi o que é para você ouvir para o outro garoto.

– Esse já era o meu objetivo. – Disse ele se preparando para ir embora, mas antes sussurrou para o amigo e rival. – Tome cuidado.

Kudou respondeu com um aceno com a cabeça. E Kid desceu do bote para uma das vigas do “U” invertido no meio do rio e trocou o disfarce, ele iria entrar no meio da multidão para encontrar alguém…

– Então… Eh…

– Kuro, pode me chamar de Kuro.

– Kuro-san… Como você quer fazer essa disputa.

– Agora que sei que era para você estar morto, terei que fazer uma disputa diferente do que queria… Não me entenda errado, eu não quero um “grupo” na minha cola, principalmente se for aquele grupo…

– Oi, não me diga que… – Disse o jovem tirando as mãos no bolso. A mulher que até agora assistia calada sentiu sua espinha estremecer.

– Se você ganhar de mim, eu direi o que sei. Mas não espere muito. – Disse ele sorrindo. – Iremos fazer o seguinte… Eu ainda quero os holofotes, mas já que não posso consegui-los com você, terei que os conseguir com “aliados” seus…

– Nani?! – Disse ele rangendo os dentes.

– Você não tem muita escolha aqui. Já me causou muitos problemas. Eu estou atendendo seu pedido, não é mesmo? – Dizendo isso ele sacou uma outra arma de dentro da roupa, essa estava dentro de uma sacola plástica. – Você poderá ajudar esses aliados pela sombra, PORÉM! Sem deixar claro que é você que está ajudando, afinal, se é para você estar morto, que esteja mesmo…

– O que quer dizer com isso?! – Kudou começou a suar frio. É verdade que assim ele evitaria a B.O., mas colocaria “aliados” em perigo…

– Eu colocarei um corpo em estado irreconhecível nesse mar, “levado pela correnteza”, darei a localidade para a polícia após um tempo necessário e mudarei os arquivos do teste de DNA. Você será confirmado morto em 2 semanas a 3 semanas… No máximo um mês… Até lá… O jogo estará em espera. – Disse ele abrindo um sorriso amável.

– Que corpo é esse?! – “Droga, a situação só piora!” Pensou o garoto.

– Um corpo que irei roubar de algum cemitério. Não teria graça essa solução fazer parte do jogo, não é mesmo? Se eu matasse alguém para cobrir sua morte, você iria preferir colocar a vida em risco para evitar e, caso não conseguisse, solucionar o crime, não é mesmo? – Ele pegou um silenciador de um dos bolsos e começou a soprar o cano para tirar o excesso de água.

Kudou não sabia se era uma boa solução, ou não… Ele parecia estar tentando de tudo agradá-lo, e ao mesmo tempo, estava impondo o seu querer… Ele tinha o controle completo da conversa… E estava dando muitas pistas… Kudou já tinha entendido o que ele iria fazer com aquele revolver… Não que gostasse, mas achava isso o de menos.

Shiho estava começando a ficar apreensiva, tinha prometido não interferir, mas ela estava ficando com medo… Era realmente uma boa ideia ficar quieta?!

– Por fim, eu mandarei a lista dos aliados que escolherei após lhe investigar nesse tempo de pausa… Mandarei através… De um boneco de pelúcia, em um banco no parque próximo ao estádio de Beika, que tal? – Ao dizer isso ele pós a mão esquerda no queixo e concordou com orgulho da sua escolha.

– E… Qual será o jogo? – Era uma pergunta que tinha que ser feita… Apesar dele ter medo da resposta.

– Simples. Eu irei criar um crime, os aliados têm que resolver a tempo, caso eles falhem, eles morrem, junto com as possíveis vítimas. Ah! Caso eles evitem vítimas, mas não evitem os crimes, é justo que eles “morram” igual a você, ou pelo menos até o fim do jogo. Após… Hum… 4 casos… Isso… Teremos o encerramento. Independentemente de quem estiver vencendo, mas claro, quem estiver na frente acabará determinando o final… E tenha certeza. Empate é o pior resultado. – Ele abriu um largo sorriso e levantou a arma dando dois tiros, um no braço esquerdo e o outro na perda direita do Shinichi que segurou o grito de dor. Shiho ia clamar o nome do ferido, mas teve sua voz interrompida pela larga mão do jovem vilão que apertava seu rosto com uma força absurda. Apontando a arma para Miyano ele finalizou seu discurso com uma última frase, seguida de um largo sorriso. – Pule na água. E nosso contrato está selado. Não pule, e sua namorada aqui morre.

Shinichi concordou com a cabeça, o que fez a parceira lutar em desaprovação, ela parecia não se importar com a arma que era empurrada contra seu rosto. E suor começou a escorrer por causa da adrenalina do desespero. “Não faça isso Kudo! Com esse braço e perna você não conseguirá nadar!”

– Não se preocupe Shiho… Nós temos uma disputa para vencer não é mesmo? – Disse ele com um sorriso carinhoso enquanto deixava o seu corpo enfraquecido cair na água.

Ela tentava gritar, mas a mão abafava o som… E por algum motivo que ela desconhecia, a disputa que Shinichi mencionara, ela tinha certeza que não era contra Kuro…

– Agora! – Disse Kuro pressionando Shiho contra a borda do barco e marcando seu rosto com o revolver. – Deem essa mensagem para o Kaitou Kid: “Na minha última disputa contra Kudou Shinichi, levarei uma joia interessante. Diferente de qualquer uma que você roubou até hoje.” Entendeu?

Após confirmar que ela gravou a mensagem, ele a estendeu ao mar e finalizou sua conversação daquela noite:

– Agora vá salvar seu namorado, duvido que ele consiga nadar naquele estado. E não se esqueça:

NÃO HÁ MUDANÇA DE REGRAS! JOGUEM O JOGO ATÉ O FIM!

Miyano Shiho agora tinha sido jogada na água, coisa que ela aceitou de bom grado, forçou os olhos a se acostumarem com o líquido e buscou o parceiro em meio a escuridão… Mas como? Estava escuro lá no fundo, ele estava de preto… OS DISTINTIVOS! Desde o caso da Torre Bell Tree eles possuíam luz de LED!

Buscando em seu corpo até encontra-lo, ela forçou o dispositivo a ligar fora de sua visão, para não prejudicar, mesmo que momentaneamente seus olhos. E se concentrou. Não demorou muito para notar uma luz que balançava bruscamente um pouco ao fundo. Kudou estava se afogando! Ela se apresou, até encontrar o detetive que a viu e tentou sorrir em meio a sua luta incessante para subir. Ela agarrou seu corpo junto ao dela com o braço esquerdo e com o direito remou em direção ao ar. Kudou no início tentou ajudar com o braço direito e a perna esquerda, mas ele já estava lá a um tempo, e no meio do caminho perdeu o fôlego e a consciência. Mas naquele ponto o empuxo já era suficiente para Shiho fazer o resto, e com toda sua determinação ela levou-os a superfície.

Kuro ao ver eles reaparecerem soltou um sorriso e guardou algo no plástico que antes possuía guardado sua arma extra. Em seguida entrou no barco e começou a procurar algo que pudesse atar fogo no local. Após um tempo encontrou e assim o fez. Shiho já estava indo para o outro lado do rio, para a encosta debaixo da ponte onde alguns barcos atracavam. Ela viu de relance o fogo, mas não desacelerou, se eles fossem vistos, tudo seria jogado água a baixo. A multidão entrará em euforia, só olhavam para aquele lado. Quem estava no lado oposto, corria para a outra ponte mais próxima para atravessar. Kuro fugirá em meio ao caos. Nem mesmo os policias, Megure e Kogoro notaram ele subindo as escadas. Eles tinham chegado a pouco tempo e estava examinando o local do tiro.

Obviamente eles correram para o local do fogo. Mas não conseguiram evitar o desaparecimento das manchas de sangue. Ou qualquer traço.

Graças a esse tumulto, Shiho conseguiu pressionar as feridas de Kudou com partes rasgadas da roupa e fazer os primeiros socorros para garantir que ele tirasse a água dos pulmões. Recuperado do choque, ambos desapareceram em meio à noite.


Quanto a Kaitou Kid, ele tinha se encontrado com uma jovem que estava caída de joelhos chorando. Ela a pegou pelo braço e disse com uma voz que lhe era familiar.

– Ran, temos que sair daqui.

– Shi… Shinichi? – Disse ela em meio as lágrimas com uma voz fraca…

Era ele. Pelo menos se parecia com ele. Ele fez um sinal de silêncio e ela o seguiu até um carro. Chegando lá, ele disse “vamos Jii-san”, e o motorista ligou a ignição.

– Espera Shinichi, eu tenho que avisar a Sonoko… – Ela ia abrir a porta, mas o carro começou a se mover.

– A avise por mensagem que você está segura com aliados.

– Aliádos…? – Essa expressão… Soava terrivelmente estranha.

Kaitou Kid tirou o boné e colocou o monóculo, a cartola branca e tentou sorrir.

– KID?! – Ela estava confusa, surpresa, tristes, decepcionada e… Muito confusa. Muitas ideias se passavam pela sua mente.

– Sinto muito e não se preocupe. Estou só atendendo ao pedido daquele detetive, de te levar para um lugar seguro até que tudo acabe, independente do que aconteça. –  Sua expressão estava séria.

– Shinichi pediu?! E você aceitou…? – Sua confusão só piorava, ele não parecia mentir.

– Sim… Vamos dizer que eu e ele temos uma relação amistosa de rivalidade. – Kid novamente tentou sorrir. – Então o plano é simples, você ficará sobre os cuidados do Jii-san aqui em um dos meus esconderijos até que tudo tenha sido resolvido. Você pode mandar mensagens para seus amigos e familiares, mas por favor, não diga que sou eu que estou te protegendo, isso traria problemas para mim, você e o detetive, okay?

Ran não conseguia raciocinar… Ela estava muito abalada, mas concordou… Porém tinha algo que ela tinha que perguntar.

– Mas e o Shinichi?! – Ela se aproximou com as duas mãos juntas, quase como uma prece. Kid recuou de leve e corou um pouco por ela estar muito perto.

– Pergunte a ele, talvez você consiga uma resposta. – Ele desviará os olhos nervoso. Não queria dar uma resposta definitiva.

– Entendo… Obrigada… – Ela sorrirá, a resposta dele a dava esperança… “Pergunte a ele”… Ele está vivo então, certo?

Eles dirigiram por um bom tempo, até chegar em uma casa simples. Mas bem equipada. Kid a guiou até um quarto no porão. Quando a Ran estranhou ele já tinha fechado a porta com ela dentro. Ela ia começar a gritar, mas ouviu o ladrão do Luar responder do lado de fora.

– Não pense mal de mim… Faço isso para seu bem. Conhecendo o seu gênio, você tentaria participar do caos que irá se formar nessa cidade. E eu prometi lhe proteger… Como disse, você receberá comida, roupa, etc. Possui um banheiro no quarto, computador e televisão… Se quiser arrumo até alguns jogos… Não estou te excluindo do mundo, porque quero confiar que você vai cumprir o acordo. Queria lhe dar mais liberdade, mas ai seria pedir demais.

– Kid, eu acredito em você, mas você acha que se eu ver que posso ajudar ficarei aqui parada?! Eu darei um jeito de sair, nem que tenha que gritar até meus pulmões estourarem! Direi a todos que você me sequestrou! – Ela estava brava, apesar de entender os motivos.

– E é exatamente por isso que não posso te deixar solta… Esse quarto é a prova de som… A porta suporta bem o seu karate… – Ele deu dois toques nela que, apesar parecer ser de madeira, soou como um metal pesado. – E o caminho que você viu pela janela do carro era uma gravação… Logo, nem mesmo a sua localidade você sabe… E como disse, eu queria, e ainda quero, lhe dar mais liberdade… Mas você terá que conquistar minha confiança para isso.

Ela se afastou da porta… Ela entendeu o significado daquilo… Aparentemente Kaitou Kid a conhecia muito bem… Mas como? Ele ouvia dela pelo Shinichi? Enfim…

– Irei avisar que estou bem para algumas pessoas, sem problema né? – Disse ela em um tom de voz mais alto.

– Mais é claro. Fique à vontade. E só me odeie quando tudo isso acabar… – Dito isso, ela escutou os passos dele sumindo.

Ela sentou na cama e ligou o celular e começou suas mensagens. Ela tinha que garantir que as pessoas entendessem que ela estava bem, e não só isso, que mantivessem sigilo. Ela queria a liberdade necessária para ajudar no “caos”, mesmo que fosse somente uma ajuda apontada por Kid.


Sangue… Era isso que tinha derramado no local do tiro… Sangue esse que seria confirmado mais a frente sendo de Kudou Shinichi. Mal sabia a polícia que esse sangue tinha sido preparado pelo detetive para ser derramado pelo colete que Kaitou Kid usava, projeto semelhante a uma das criações do Agasa Hakase.

Notar aquele sangue, não ver sinal de nada na água, doía muito o peito dos polícias ali, do detetive particular também.

“Me perdoe Kudou… Eu desperdicei a chance que você me deu…” Megure cerrava seus pulsos com firmeza e tentava desviar os olhos das manchas.

Mouri Kogoro ao perceber o conflito do amigo averiguou mais de perto o encosto da ponte… Ela tinha marcas de arranhão recente perto do chão… Algo tinha sido retirado dali brutamente… Durante a queda?! Mouri começou a pôr o cérebro para funcionar de uma forma que só faz por duas mulheres e algumas exceções.

“O garoto tinha realmente planejado contramedidas… Mas o que seria isso? Provavelmente ele não caiu na água… O som naquele momento era de um corpo só… Então ele deve estar vivo… Como…? Um colete? Mas para que ele simularia a própria morte…? E se não foi ele que caiu… Então foi o assassino?! Não… Espere… O assassino usou uma asa delta com motor… Ele tem equipamentos parecidos com Kid… Então, provavelmente, ele também tem uma pistola com gancho… Eu não quero acreditar, mas talvez quem caiu foi o garoto… Que merda! Preciso de mais pistas…”

– Megure, precisamos começar a busca no… – O detetive ia começar a fazer seu pedido, mas o incêndio tinha começado. Ao ver aquilo, aquele desfecho, Mouri decidiu…

“O garoto não tacaria fogo em nada… Quem caiu na água foi ele… Eu ainda não tenho muitas pistas… Mas eu irei capturar esse desgraçado e leva-lo para trás das grades eu mesmo!”

Tendo convicção em sua escolha, Mouri e Megure correram para o caos. Começaria agora, somente para eles, uma caçada infrutífera de um mês. E após esse tempo, o primeiro jogador já estaria definido.


 

Este guia é uma iniciativa da GodHandS Fansub.