Capítulo II – Mouri Kogoro

CAPÍTULO II

Mouri Kogoro

            Ainda em roupas fúnebres, Megure e Kogoro encontravam-se em um bar. Foi doloroso, tudo que ocorrerá mais cedo… Eles não trocavam palavras, somente goles de cerveja barata que não conseguia balançar o mínimo necessário para que eles esquecessem suas dores. Foi necessário que Takagi e Satou sentassem na mesma mesa que eles para que o silêncio pleno fosse destruído.

– Isso… Foi uma completa derrota… Não é? – Perguntou Takagi.

Mouri estalou a língua, ele não queria aceitar isso.

– Megure, como você ficou sabendo do local do corpo? – Perguntou ele não querendo levantar a bandeira da derrota.

– Estava em minha mesa… Uma carta com essa informação… Por quê?

O detetive levantou da cadeira, sua cara ficou pálida e ele começou a suar frio… “Sério isso?”.

– O que foi Mouri?! – Disse o exausto inspetor afastado com um tom mais forte em sua voz por conta do susto.

Mas o renomado dorminhoco não respondeu, só voltou a se sentar e segurar o seu queixo. Os outros dois homens ficaram confusos, mas a mulher entendeu.

– Inspetor Megure… Isso não é possível… Já tinha duas semanas que a equipe de busca tinha parado sua operação, então não tinha como eles terem encontrado o… Corpo… Tanto é que você que ligou para eles dando a localização. Apesar da sua dedicação e nome no quartel, se qualquer policial conseguisse essa informação, eles não entregariam especificamente para você, provavelmente iriam entrar na sala informando a todos…

– Satou… Você quer dizer que o maldito colocou isso na minha mesa, DENTRO DO QUARTEL DE POLÍCIA?! – A idéia o enlouquecia.

– Não precisa ser ele… – Takagi sentiu um frio na espinha. – Pode ser um aliado dele…

Essa idéia era absurda… Porém plausível… Independente da verdade ali levantada, ambas diziam que o “Caos de Tokyo”, como chamavam os jornais, tinha acesso a eles… Mouri, após muito pensar, chegou a uma conclusão…

– O que irei dizer para vocês, ficará somente entre nós… É uma teoria, mas…

Todos ouviram ele com extrema atenção, cada palavra, cada expressão. O que ele disse era assustador, mas agradável, era esperançoso, era o que eles precisavam naquele momento.


Distante de tudo aquilo, porém próximo do estádio de Beika, um jovem completamente coberto em roupas pesadas se disfarçava de mendigo e perambulava pelos parques próximos em busca de algo. Porém o que ele buscava estava no parque mais próximo, Chofu, enterrado atrás de um banco, com a mão de pelúcia saindo da terra.

Quando ele retirou o “Teddy Scares” da terra, sua barriga estava rasgada com um papel dobrado lá dentro. Kudo pegou, abriu e se arrepiou… Direto e seco, estava ali o que ele esperava ver. Guardou o papel no bolso e o urso de pelúcia em uma sacola plástica e partiu, em um trajeto ilógico pelas ruas, estações, edifícios e instalações. Deve ter lhe tomado três vezes mais o tempo necessário para chegar ao seu destino, motivo de tal demora era para se ter a certeza, de que ninguém poderia segui-lo.

– DEMOROU! – Foi com essa expressão que ele foi recebido na casa do cientista.

– Hai hai… Tinha que ter certeza da segurança do meu retorno… Apesar de que isso não adiantará muita coisa…

– Como… Como assim? – Perguntou Haibara soltando os braços que antes se cruzavam na esperança de mantê-la firme em sua bronca.

Hakase terminou de organizar a papelada que tinha sido entregue mais cedo e se reuniu aos dois com uma expressão de preocupação. E por algum motivo, Kudo ao ver seu amigo, desviou o olhar com um rosto contorcido de dor. Haibara não gostou da reação e estendeu a mão pedindo o motivo, que ela já julgou ter forma física: A lista.

“Segue a lista com os aliados escolhidos por mim. Eu não direi quando a partida irá começar, nem quanto irá durar. Mas será fácil perceber quando acabar. A seguinte só irá começar com o fim da anterior. Não necessariamente logo em seguida. Lembre-se Kudo, você não pode ajudá-los diretamente.

            1º Mouri Kogoro

            2º Agasa Hiroshi

            3º Takagi Wataru

            4º Hattori Heiji

            As partidas serão distintas umas das outras e não serei eu a administrá-las.

            Obs.: A chamada do detetive dorminhoco já está a caminho.”

            As pequenas mãos da Haibara tremiam… Não que ela não esperasse por isso… Mas ela não queria isso… Os desejos e a realidade se contradiziam… Hakase leu tudo por cima da cabeça da pequena garota que virou seu rostinho assustado para ele.

Agasa soltou um riso leve e disse:

– Ora, parece que agora você tem dois trunfos Shinichi. Não se preocupe. Algum momento eu recuei quando você precisou de minha ajuda?

Kudo respondeu a posição do amigo com a firmeza que o homem pedia.

– Nunca. Mas não diminui a dor de colocar você em um perigo, que sinceramente, eu não sei medir. Se eu soubesse como seria essa disputa, eu poderia…

Agasa levantou a mão para que ele parasse de falar:

– Não importa o quão bom detetive você seja Shinichi, você não é vidente. E, independente das incertezas, eu confio em você, assim como seu pai. Que novamente deixou tudo sobre suas mãos.

– Hakase… – Haibara queria dizer algo, mas tudo parecia em vão… Ela se sentia impotente naquela situação.

– Não se preocupe Ai-kun. – Disse ele passando a mão na cabeça da garota. – Por hora, vamos fazer o que está em nosso alcance. A Jody veio aqui mais cedo e trouxe tudo o que ela pode juntar que tivesse algo semelhante ao Kuro.

– Semelhante? – Questionou Kudo enquanto seguia o velho amigo que o direcionava para a papelada.

– De acordo com ela, ele não está nos registros… Então ela buscou coisas que parecessem com o assassinato da garota.

“Tch… Tinha esperanças que ele tivesse dados mais diretos… É possível que nenhum seja sobre ele… Kuro… Você é veterano fenomenal, ou um novato excêntrico?”

– Haibara, posso deixar isso para você?

O pedido vindo diretamente a ela por Kudo fez com que ela acordasse de seu medo. E ela voltou a raciocinar sobre tudo que acontecia. E ela compreendeu o pedido.

– Pode, porém não agora. Eu sei que você quer ir o mais rápido possível para a agência de detetives, mas você ainda tem algumas horas até voltar a ser Edogawa Conan.

– Eu sei disso. Mas não estou indo lá agora. Preciso me encontrar com outro alguém…

– Quem?

Kudo coçou a cabeça… Ele tinha prometido não esconder nada, mas tinha algumas coisas que eram necessárias omitir… O vizinho, por exemplo…

– Vou tentar entrar em contato com o Kid. Até agora não conseguimos dar a mensagem do Kuro a ele, certo? Com o meu enterro, talvez agora eu consiga.

– Entendo… – Disse Haibara em monótono. – Não demore, de acordo com meus cálculos você tem 8 horas ainda.

“Ela não acreditou…” – Não devo levar nem 2 horas…

Ele se retirou e foi a caminho da sua casa. Ainda disfarçado. Bateu a porta e foi recebido pelo Subaru, ou deveria dizer…

– Akai, preciso de um favor seu.

– Não me lembro de ser amigo de um senhor com essa idade, muito menos um que não saiba meu nome.

– Justamente por eu não saber seu nome que você irá adorar me ouvir, não é?

Subaru percebeu os olhos por debaixo dos longos cabelos negros, escondido em meio as rugas, eram olhos joviais e fortes.

– Entre. – Disse uma voz distinta da qual o recebeu inicialmente.


Já de volta a ser Edogawa Conan, o jovem detetive se movimentou para a agência de detetives. Ele tinha que acompanhar Mouri Kogoro, para quando a “partida” de Kuro desse início. O que o incomodava mais no momento era a parte que dizia: “[…] não serei eu a administrá-las.”

Era esperado que Kuro tivesse aliados dentro da polícia… Mas pessoas dispostas a “administrar” um crime era preocupante. Dependendo do nível da pessoa, talvez não seja possível evitar o acontecimento…

“Não pense assim Kudo, vai dar tudo certo.”

Ao abrir a porta da agência, o jovem encontrou o grande Mouri imerso em pensamentos enquanto andava para de um lado para o outro. Demorou um tempo até ele perceber a criança.

– O que está fazendo aqui moleque? Não ia ficar na casa do Agasa?

– Eu… Vim ver o que você anda fazendo Ossan. – Disse Conan fingindo estar cabisbaixo.

A atuação deve ter feito efeito, porque o famoso dorminhoco não reclamou da companhia. Só voltou a sentar em sua mesa e começou a batuca-la enquanto encarava o telefone.

– Esperando alguma ligação? – Perguntou Conan sentando no sofá onde os clientes normalmente conversavam com o dono do escritório.

– Sim…

– Da polícia?

Mouri parou de batucar, olhou o garoto e falou de forma mais densa.

– Não se preocupe, eu sei o que estou fazendo. –Voltando assim a batucar.

Kudo achou estranho essa frase… O que o Ossan estava pensando, fazendo ou planejando? Será que ele encontrou alguma pista? Shinichi precisava saber para poder ajudar de forma indireta, então decidiu jogar a cartada que o Agasa lhe deu.

– Ossan, tinha essa encomenda no correio… – Ignorado. – Parece um presente… – Parou de batucar. – Da Okino Yoko-san. – Nesse momento Mouri pulou da cadeira e correu para pegar o pacote. Estraçalhou a embalagem e retirou lá de dentro uma gravata simples e uma carta.

Coçando a garganta com as forças de seus pulmões ele começou a ler:

“Mouri-san, estou lhe enviando esse presente humilde como um amuleto de boa sorte. Após a morte do Kudo-kun estou apreensiva que meu amigo detetive vá se pôr em perigo. Por favor, cuide-se.

Okino Yoko.”

Fazendo um barulho de emoção e com rosto em lágrimas, ele cerrou os punhos na altura do pescoço e correu para frente do espelho para experimentar a nova gravata. Com um sorriso bobo e seu novo pedaço de veste, ele ia começar a soltar o seu “Yoko-chan” característico, mas o telefone tocou na hora. Fazendo ele mudar completamente. 8 – 80.

– Garoto, volte para casa do professor, ou saia para brincar.

– Mas…

– Agora.

– Sim senhor…

Mouri sentou-se na mesa, esperou o garoto sair e fechar a porta para poder atender o telefone.

– Agência do Detetive MouriKogoro.

“Mouri-san, sou eu, Takagi.”

            – Conseguiu a lista que eu e o Megure pedimos?

“Sim! Eu já informei o Megure-san. Você estava certo!”

            – Ótimo, por favor, me mande o fax.

“Não pode ser e-mail? É mais prático e…”

            – Fax… Se minhas suspeitas estiverem certas… Quanto mais indizível o meio, melhor…

“Indi-indizi-indizível? Ok. Já te mando.”

– Obrigado.

Mouri desligou o telefone e começou a olhar o fax. Mal sabia ele que parte dessa conversa foi escutada pelo garoto que sentava nos degraus da escada com seu brinco telefone.

“Colocar uma escuta em uma gravata presente da Okino Yoko… Hakase sabe ser astuto quando quer… Eu preciso ver esse fax para saber quais são as suspeitas do Ossan. Mas por hora, é melhor eu esperar ele sair…”


Após um tempo enrolando no Poirot, Conan viu o detetive saindo às pressas de sua agência e entrando de imediato em um taxi que o esperava. Pedindo para o Amuro colocar o sanduíche na conta o garoto saiu de seu banco e começou sua missão.

Entrar na agência, para ele era fácil, ele tinha a chave. O difícil seria achar o fax, e na pior das hipóteses, descobrir a senha para pedir o aparelho reprimir o último envio. No fim, foi necessário a segunda opção. O que quer que fosse o fax, o Mouri levou consigo.

Após ligar o aparelho, Conan começou a pensar qual seria a senha… Após um tempo ele se indagou o óbvio, e olhou na parte de trás do móvel que estava o eletrônico, e lá encontrou um papel com a senha.

“Do que adianta um meio ‘indizível’, se a senha está entregue Ossan?”

Pedido a reimpressão, assim que a primeira folha saiu, Edogawa pegou o celular e fez uma ligação rápida.

– Haibara! Preciso que você e o Hakase vão para as extremidades da central da polícia.

“O que aconteceu?”

            – Preciso que vocês escutem informações diretas do Ossan. Ele com certeza está na pista certa. Mas não tem como eu lapidar o caminho, se não sei o seu percurso.

“Ok…Hakase! Pega o telefone-brinco reserva! Temos que ir para a central da polícia pegar informações! Alguma informação que devemos dar mais atenção Kudo?”

            – Sim… Dê atenção especial a qualquer coisa relacionada a nova equipe criminalística.

“Entendido.”

            EdogawaConan desligou a chamada e encarou friamente o papel em sua frente… Era uma lista dos novos membros da equipe criminalística que entrará para a equipe da central uma semana após o incidente na ponte… O Ossan suspeitava deles, e com razão.

Mas além da suspeita óbvia sobre a nova equipe, será que Kogoro suspeitava da morte do detetive colegial? Se sim, isso era uma boa notícia… Mas agora… Só tem “modelos” nessa equipe? Levando em conta as funções, a maior suspeita seria a brasileira MitsuzawaYumi… Não me surpreenda que o Ossan foi correndo para lá, o Takagi mandou muita pouca informação… Ou ele só queria ver as garotas bonitas… Um dos dois…

 

 

 

 
Nome: Mitsuzawa Yumi
Função: Chefe administrativa da equipe. Identificação e comparação de perfis genéticos.
Especialidade: Genética Forense
Idade: 23
Origem: Brasil
 
Nome: Aizu Kurimu
Função: Identificação e qualificação de munições e armas de fogo.
Especialidade: Armas de fogo e Balística.
Idade: 26
Origem: Okinawa
  Nome: Yamamoto Saiko
Função: Identificar substâncias químicas.
Especialidade:  Laboratório
Idade: 27
Origem: Okohama
Nome: Yumeria Yoko
Função: Exame de local do crime.
Especialidade: Perícias externas
Idade: 21
Origem: Okinawa

 


Haibara e Hakase já se encontravam no estacionamento mais próximo da central da polícia, onde a garota ligava o brinco telefone. Pelo o que o sinal da escuta na gravata do desavisado detetive transmitia, ele já estava em direção aos mais novos membros do batalhão.

“Mouri, você tem certeza que é uma boa ideia fazer um ‘approach’ tão direto?”

“Se minhas outras suspeitas estiverem corretas, essa é a única maneira Megure…”

            Haibara conseguia ouvir perfeitamente os dois, mas como eles chegaram a pouco, não dava para saber sobre o que eles tinham conversado anteriormente. Porém, dava para se concluir que estavam a caminho de um “interrogatório” informal dos suspeitos. Ela abriu seu notebook e deixou arquivo de texto e um bloco de notas aberto, para fazer as anotações do que ela julgasse importante e até mesmo do que não entrasse no critério.


Mouri andava acelerado pelos corredores da instalação, já tinha chegado no andar adequado, só faltava acertar a sala. De acordo com os membros veteranos da equipe forense, os “novatos” da central estariam em uma região diferente por não haver espaço na sala original. Forçando essa locomoção toda.

Eles estavam “hospedados” em uma antiga sala de almoxarifado e ao chegar na porta, Mouri pode ouvir um constante barulho. Ele acenou para seu amigo que estava logo atrás dele, confirmando o que iriam fazer. Megure estava tão sério, que qualquer um que visse pensaria que ocorreria uma invasão a um esconderijo criminoso.

Kogoro bateu na porta duas vezes e esperou alguns segundos sem resposta. Repetiu a ação, e após o silêncio de dentro da sala, uma voz feminina e suave convidou o desconhecido a entrar.

Abrindo a porta lentamente, o que foi visto era de longe inesperado pelos dois experientes homens. O antigo almoxarifado já estava praticamente transformado em uma sala com quatro mesas próximas a entrada, duas de cada lado do ambiente, e ao fundo no canto direito empilhado os resquícios do que deveria estar lá. Os armários aparentavam estar sendo organizados no momento, o que explicava a barulheira. Quem aparentava estar fazendo isso era um homem jovem de cabelo curto e uma cicatriz no queixo, ele sorriu e cumprimentou com a cabeça aqueles que adentravam.

Aparentemente arrumando no centro da sala, uma grande mesa com vários papeis, vidros de laboratório, evidências, entre outros objetos e mais um rapaz alto e jovem. Com cabelos um pouco mais longos e claros ele ignorava os convidados e se concentrava em seu trabalho quase que detalhista.

Apesar de ter quatro mesas na sala, só tinha mais uma pessoa no local. Aquela que convidou os homens a entrar se encontrava sentada na primeira mesa a esquerda com as pernas cruzadas em um ar de extrema serenidade e supremacia enquanto tomava o que aparentava ser uma xícara de chá. Após um leve gole inaudível, a jovem imponente separou sua bebida no pires sobre sua mesa, que era evidentemente a mais limpa do local e juntos os dedos, para questionar com a mesma voz leve que convidou os senhores ao recinto em um meigo sorriso:

– Pois não? – Encarou ela os dois, com seus imensos olhos que não deixava nada passar.

Mouri ficou sem folego. Era ela uma policial de fato? Seu cabelo e pele eram perfeitamente cuidados sem sinal de estresse causado pela profissão, sua postura extremamente elegante para alguém que estaria cercada, pôr em sua grande maioria, trogloditas… Por um segundo Kogoro queria esquecer do porquê veio… E talvez mais que um segundo, porque quem tomou a dianteira foi Megure, que se demonstrou resistente ao charme daquela que estava ali.

– Perdoe a intrusão minha e do meu amigo aqui. Você deve ser MitsuzawaYumi-san, correto? – Disse o grande homem tentando se manter firme e ereto.

– Certamente. E pela sua aparência, o senhor deve ser o tão bem aclamado inspetor Megure Juzo. E seu amigo é nada mais, nada menos, que o grande detetive Mouri Kogoro, certo? – Disse Yumi com um leve sorriso.

Ao ouvir seu nome, Mouri voltou a si e confirmou que ela estava certa com um sorriso sem jeito enquanto se curvava em cumprimento e coçando sua cabeça com a mão direita. Como já estava acostumado a fazer nessas situações.

– E o que devo a honra da presença dos senhores? – Questionou ela ao decidir recuperar seu chá ainda por terminar de sua mesa.

Com essa pergunta, o detetive dorminhoco voltou ao seu foco e pegou uma cadeira da mesa do centro da sala. O que fez o rapaz a organizá-la olhar para ele e, estranhamente, demonstrar pela primeira vez que tinha percebido que tinham companhia. O inspetor afastado fez o mesmo e deixou o rapaz atônito, sua expressão gritava “O que estão fazendo com minha organização?!”

– Serei direto, senhorita Mitsuzawa. – Falou Mouri enquanto puxava o ar. – Estamos aqui para fazer algumas perguntas a você e sua equipe.

Ao ouvir isso, Yumi que estava levando seu chá a boca deu uma pequena pausa, fechou os olhos e retomou a ação. Abriu os olhos e confirmou ter ingerido todo o líquido da xícara e pode finalmente deixar de lado sua degustação. Com o rosto sério, e novamente com os dedos entrelaçados, ela encarou os dois homens com a pergunta já esperada:

– Posso saber o motivo delas?

Tanto Mouri, quanto o Megure, já encararam muitas pessoas perigosas em suas vidas. Desde as pessoas mais loucas e perversas, até as mais sãs e poderosas. A aura que emanava daquela mulher era uma mistura dessas duas vertentes… Alguém com perfeito controle de suas capacidades mentais, com vasto poder e que usa desse talento para causar as situações mais perversas e loucas possíveis… Como uma líder de uma grande Yakuza.

Eles engoliram o seco. Obviamente eles poderiam estar errados, não havia qualquer prova. Mas definitivamente, ela dava medo…

– Sendo sincero, não. – Mouri sentiu a circulação acelerar e o suar frio começar a surgir. – Mas prometo que não são perguntas invasivas. São mais para conhecer melhor o que trouxe vocês aqui a central e sobre vocês. Infelizmente vocês acabaram muito isolados por causa da falta de espaço e isso dificulta a interação, certo?

Obviamente, a ideia de dizer isso, dessa maneira, era fazer a insinuação de uma festa de boas-vindas, e que o departamento não queria agir de forma desagradável. Mas isso definitivamente não foi o que passo pela cabeça da Mitsuzawa, que após uma encarada seca, que fez Mouri sentir sua alma vigiada, suspirou e respondeu:

– Entendo. Fiquem à vontade, responderei o possível. E obviamente, os rapazes aqui presentes. – Ela fez um gesto com a mão esquerda, como se mostrasse os produtos a disposição na vitrine. Gesto esse que foi respondido com a continência rápida dos rapazes. –  Bem, a Yoko-san não está no momento, mas já deve estar chegando. Ela foi pegar uma papelada de formalização de seu inquérito de campo.

Confirmando a permissão, Megure que deu voz a primeira pergunta, a mais óbvia a ser feita.

– Espero não parecer rude, mas tem algo que vem me incomodando. Porque vocês foram transferidos de Okinawa para Tokyo? Infelizmente, eu não recebi nenhum relatório explicando o motivo, nem faço ideia do por que…

Ela riu e respondeu meigamente:

– Já perdi a conta de quantas pessoas nos perguntaram isso. É realmente estranho ninguém do departamento receber o motivo… O que foi passado para nós é que Tokyo andava passando por dificuldades com o número crescente de crimes. E que algumas áreas, principalmente a da criminalística, estavam ficando sobrecarregadas. Como Okinawa anda um pouco mais calma, decidiram nos tirar de lá, e trazer para cá… Bem, sendo sincera eu não esperava encontrar tanto trabalho assim que eu chegasse… Sem falar começando com a análise do corpo do adolescente detective Kudo Shinichi. – Quando ela disse esse nome ela estava com um sorriso fino e leve, seus olhos entre cerrados, como se ela tivesse feito esse comentário sabendo que essa era a informação principal real que eles queriam. – Julgo que devemos esse estardalhaço ao “Caos de Tokyo”, certo?

– Ora… Parece que a central não acredita muito no nosso potencial para pedir ajuda a outras províncias… – Reclamou Megure fingindo que era esse o motivo da sua cara feia.

– Não leve isso para o lado pessoal inspetor. Só seguimos ordens dos superiores. – Dessa vez, Yumi não parecia muito feliz com seu próprio comentário. – Enfim, vocês não vieram aqui perguntar só isso, não é mesmo?

– Claro que não. – Disse Mouri. – Sem necessitar de muitos detalhes, nos fale sobre você e sua carreira, fazendo o favor.

Ele sorria enquanto esfrega as mãos como um bom homem de negócios, a partir desse momento Mouri começou uma colheita de dados aparentemente inúteis, porém, que poderiam traçar um perfil, achar mentiras e levar a pistas.

Surpresa, ela olhou para o vazio procurando o início.

– Bem, eu nasci no Brasil, na cidade de São Paulo. Meus pais são japoneses, então sempre me interessei com o país e a cultura. Na minha primeira oportunidade me mudei para cá e chegando aqui, no ensino médio, me vi apaixonada pelos mistérios policiais e a biologia. Não tive dúvida sobre o curso que iria cursar e fiz medicina especializada na genética forense… Ah! Talvez vocês pensem que as datas não batem com minha idade. Mas eu me formei tanto no ensino médio, quanto na universidade com honras ao mérito. Entrei no ensino superior aos 15 anos e me formei aos 21, ao em vez de gastar os 10 anos costumeiros da medicina, gastei 6. Me ingressei na equipe de Okinawa há dois anos e durante um ano fiz meu nome… Gostaram tanto do meu serviço que me nomearam essa equipe. Mas talvez não gostaram tanto da minha presença, afinal… Um ano depois me mandaram para cá, junto com os jovens prodígios da província.

– Comparado com você, somos reles mortais Yumi-san – Comentou o rapaz com a cicatriz no queixo.

Ela deu um sorriso de agradecimento pelo elogio, voltou-se aos detetives, colocou o dedo indicador no meio dos lábios enquanto novamente olhava ao vazio do teto para pensar.

– Bem… Quanto aos meus gostos pessoais… Gosto bastante de biscoitos doces e chá-verde, não tenho uma real preferência por estilo musical e adoro o trabalho do Gosho Aoyama… Hum… Quer saber de mais alguma coisa?

– Só uma… Você disse que seu primeiro trabalho aqui foi a análise do corpo do colegial Kudo Shinichi. – Disse Mouri deixando a expressão mais séria. – Quem te passou esse trabalho e como você fez essa análise?

– Acho essa pergunta um pouco imprópria, não? – Ela se virou de costas, como se a partir daquele momento iria ignorá-los, mas ela pegou um biscoito com gotas de chocolate de uma sacolinha e disse, ainda de costas. – As ordens vieram de um superior, provavelmente o Superintendente Matsumoto-san saiba exatamente de quem. E usei a amostra de sangue que estava aqui mesmo no departamento para fazer o mapa genético. Yamamoto-kun, por favor, responda as perguntas que cabem aos detetives, aparentemente, alguma coisa anda os incomodando, seria interessante que nós o ajudássemos a aliviar suas angústias, não é mesmo?

Yamamoto sorriu e sentou em sua mesa que ficava do lado direito da sala, perto da porta, e fez um gesto com a mão os convidando para que eles sentassem em sua frente. O outro rapaz que tinha terminado seu serviço, foi até um erlenmeyer e usando um bico de Bunsen aqueceu água para… Um macarrão instantâneo?


Mouri e Megure decidiram fazer o que o rapaz insinuou, mesmo que parecesse idiota, já que naquela pequena sala, qualquer um poderia ouvir as conversas e não era realmente necessária essa movimentação. Como só tinha uma cadeira em frente à mesa do Yamamoto, o Inspetor afastado pegou uma cadeira da mesa de centro, e sem olhar, sentou-se. Para sua infelicidade, naquela cadeira em específico tinha uma almofada bastante conhecida pelas crianças dos anos 80, fazendo reverberar um som fátuo pelo local, levando o pobre homem a ficar vermelho igual uma pimenta.

Yamamoto não conteve a risada, Mouri tentou entender o ocorrido, Yumi escondeu seu rosto em suas mãos, e de costas não dava para dizer se ela estava inconformada ou bravamente segurando o riso, já o outro rapaz somente sacudia a cabeça em desaprovação e comentou:

– A primeira coisa que vocês devem saber sobre o Saiko-kun é que ele é uma criança grande. Ele adora essas brincadeiras de gosto duvidoso.

Megure retirou a almofada de baixo de si e a jogou longe, ainda vermelho ele esperou Yamamoto parar de rir para destacar seu desgosto, mas assim que a risada se esvaiu, Saiko tomou a palavra:

– Me perdoem, mas isso foi cômico. E ignorem o Aizu, ele é a piada aqui. Eu sofro com suas constantes anedotas. – Dizendo isso ele levantou as mãos e sacudiu a cabeça em desaprovação. – Por favor, não deixe que isso os abale, somos todos parceiros na luta contra o crime aqui, certo?

Yamamoto estendeu a mão para um aperto amigável, que foi visualmente recusado pelo ainda vermelho inspetor, mas Mouri não queria deixar a oportunidade do seco deixado pela conversa com Mitsuzawa.

– Que assim seja, espero que… – Nesse momento, o grande detetive adormecido foi surpreendido por um choque que percorreu sua mão… Um anel de choque… Outro brinquedo infortúnio.

Yamamoto novamente se jogou a risada, só que dessa vez a expressão que tinha sido feita pelo famoso homem era de quem estava vermelho de raiva pronto para enfrenta-lo, mas tanto a risada do rapaz, quanto a fúria do homem foram vetadas pelo sermão da jovem, que ainda sem se virar, deixou claro:

– A próxima brincadeira dessa, será sua última… Em toda sua vida.

Ele soltou um perdão humilde e se ajeitou na cadeira.

– Juro que não faço por mal, é assim que estabeleço minhas amizades… Umas pequenas implicâncias iniciais. Não tendo a prolonga-las, com exceção do Aizu… Por isso tinha uma almofada ali.

Tanto Mouri, quanto Megure, estavam em seu limite. Como alguém em tão pouco tempo poderia se demonstrar incapaz de seguir tal profissão? E tal atitude levou o questionamento a algo mais desagradável.

– O que te fez se juntar a perícia? – Disse Mouri com uma expressão de desdém e desgosto.

Yamamoto deu um sorriso torto e desconfortável, ajeitou-se e respondeu:

– No início fiz faculdade de biologia por causa de uma aposta… Disseram que eu era incapaz de entrar em uma faculdade. Após entrar e frequentar algumas aulas pensei: “Imagina as possibilidades!”. Porém, as possibilidades não eram tantas assim… Conforme ia gostando do curso, ia odiando as especializações. Até eu participar de uma palestra ministrada por Omura Satoshi-san, onde ele falava de suas descobertas… E sinceramente, algo me ocorreu nesse dia…

Ele sorria, de uma maneira mais madura e séria. Apesar de agir feito um moleque, de longe ele gostava de sua profissão, era sua vocação.

– Se ele descobriu tanto para evitar infecções causadas por parasitas nematoda, porque eu não poderia descobrir algo incrível também enquanto olhava os detalhes mais minuciosos?

– Então você decidiu se especializar na bioquímica por causa disso… Mas e parte do forense? – Perguntou Mouri, com sua compostura já recuperada.

– A realidade… É que eu era bem ruim em tudo isso. – Ele riu escandalosamente enquanto segurava a cabeça com a mão direita. Ao perceber que ninguém achou aquilo uma piada, Saiko murmurou algo como “Alguém me tira daqui”, respirou fundo e concluiu o raciocínio. – Até um dia eu, por acidente, perceber que era muito bom em identificar substâncias químicas fora do padrão.

– Acidentalmente? – Acentuou Megure.

– Um dia, algum aluno, do curso acabou por guardar um frasco de uma substância transparente em um lugar indevido, junto a outras substâncias transparentes… Bem, não entrarei em detalhes químicos, nem biológicos, mas ao misturar o conteúdo dos frascos com mais coisas, identifiquei o “fora do padrão”. A partir daí, foi só fazer a purificação das substâncias.

– Você… Meio que ainda não respondeu minha pergunta… – Suspirou Mouri.

– Ah, simplesmente foi um emprego que trabalhava com meus conhecimentos. Não tem um motivo muito profundo sobre isso.

– Não brinca… Você sabe que só entra aqui fazendo concurso, não é? – Megure já estava querendo passar para o próximo… Mas a cada pergunta respondida, outra era formada.

– Eu fiz a prova enquanto mandava currículo para outros empregos. Só aconteceu deu receber um feedback positivo da equipe de Okohoma primeiro. – Ele levantou as mãos em desdém a sua própria resposta.

Apesar de parecer uma grande lorota tudo aquilo, eram respostas “satisfatórias”, e nenhum dos dois homens poderiam falar, naquela situação, que não acreditavam em suas palavras. Tinham que forçar uma discrepância maior…

– E essa sua cicatriz no queixo, o que houve? – Perguntou Megure, querendo evitar que saíssem derrotados nesse questionário.

– Ocorreu quando eu, inocentemente, apontei em voz alta a mentira de uma suspeita de um crime. – Ele disse isso com orgulho, coçou a cicatriz com o dedo indicador enquanto sorria zombeteiramente. – Querem os detalhes?

Ele obviamente estava ansioso para essa parte e, sinceramente, ninguém queria dar essa realização a ele… Mas o dever “chama”…

– Por favor… – Pediu Kogoro desanimado.

– Teve esse crime em Okohama onde o corpo de um cara foi encontrado no meio da sua sala de estar, sobre a mesa de centro! Tinha sangue para todos os cantos! Eu e meus colegas fomos chamados para coletar os vestígios, mas algo tinha me chamado atenção no padrão do sangue. Apesar do corpo está caído na mesa de centro, e ter sinais de luta. Tirando o sangue projetado na parede e no chão, as manchas não faziam sentido.

– Como assim? – Indagou Megure, que ao ver o sorriso maroto do rapaz se arrependeu.

– O corpo da vítima estava como se tivesse caído de frente com a mesa, e a ferida do seu corpo estava em seu peito. MAS! Atenção. MAS! O sangue na mesa tinha sido transferido e não gotejado. – Percebendo que os termos usados não deixaram claro a narrativa, Yamamoto ajeitou a gravata e explicou. – Manchas projetadas é quando algo, ou alguém, arrasta sobre a superfície do sangue, deixando um rastro. O que seria esperado caso o corpo caísse naturalmente sobre a mesa.

– Mas não era essa mancha que estava na mesa? – Claramente confuso o Mouri tentou acompanhar.

– E AI ESTÁ O ERRO MEU CARO WATSON! – Sua voz aumentando a intensidade acordou os dois detetives, que estavam ficando interessados. – A mancha transferida é para quando o sangue JÁ estava no local, e algo, antes dele secar, se arrasta sobre. Mas como o corpo da vítima faria isso, se ela era a fonte do sangue?!

De fato, não faria sentido, a não ser que o corpo tenha caído sobre a mesa um tempo depois do sangue gotejar sobre ela…

– Mas isso é possível… Basta a vítima sobreviver ao corte e, enquanto luta pela sobrevivência, deixe o sangue cair sobre a mesa. Após um tempo cair sobre ela, não?

Para cada pergunta, o ego de Yamamoto crescia mais, ele obviamente não queria dar a resposta imediata por quê, provavelmente, esse é um feito que ele se orgulhava de ter conquistado.

– Sim, concordo, mas aí não bateria com o testemunho da suspeita! Ela tinha dito que ela chegou em casa no exato momento que um homem vestido de preto com máscara tinha cortado o peito de seu marido! Que chegou a ver a expressão de dor do marido que se virou e caiu de imediato na mesa! Ao gritar aterrorizada, o bandido teria se assustado e corrido pela porta que dava a varanda. MAS! Se o corpo caiu de imediato sobre a mesa, não teria um rastro transferido! – Ele estava com um sorriso extremamente largo, quase… Perturbador. – Quando apontei isso em voz alta, a mulher alegou ter se confundido, talvez tenha perdido a noção do tempo por causa do susto e pânico… O que seria uma resposta válida SE o “sangue” tivesse respondido ao luminol.

Já entretidos pela narrativa, os homens mantiveram-se calados esperando a continuação.

– Como o sangue na mesa não tinha resposta ao reagente, concluí que aquilo não era o sangue do homem, não como todo. E de fato, não era. Viemos a descobrir mais tarde que era extrato de tomate. Novamente, ao apontar que aquilo não era sangue. A mulher não sabia explicar o que estava debaixo do marido. E para completar, eu já levado pela adrenalina, virei o corpo do homem e pude testemunhar que sua ferida já estava fechada, PORÉM o falso sangue ainda estava ralo! Encurralada, a mulher em fúria pegou a faca usada para matar seu marido das mãos de um dos meus colegas e tentou desferir um golpe contra mim! Que graças aos detetives no local impediram que fosse mais próximo do que foi. Me dando somente essa cicatriz!

Yamamoto concluiu com uma pose triunfante. Que rapidamente foi diminuída pelas anedotas de Aizu:

– Em outras palavras, ele a pressionou com suposições teóricas, arruinou a cena do crime no calor do momento e ainda ficou marcado pelo resto da vida por sua atitude não profissional. Bom trabalho.

– HEY! – Reclamou Yamamoto que ia se virando para os dois detetives que se levantaram para ir em direção ao próximo entrevistado.

– Por favor, poderá ser breve, senhor…

– Aizu Kurimu, Megure-san, Mouri-san. – O rapaz os cumprimentou seriamente enquanto indicava duas cadeiras já postas enquanto eles conversavam com Yamamoto.


Aizu estava sério sobre sua mesa segurando um pote de macarrão instantâneo, ele esta come ele aberto deixando o odor do sabor de carne do alimento se espalhar. Casualmente ele levantava o macarrão a boca e soprava levemente.

– Erm… – Iniciou Megure. – Por que não nos fala sobre sua vida?

Kurimu devagou por um instante enquanto pensava na resposta e, em um movimento ágil e preciso, ele pegou os hachis de trás de si e os inseriu no recipiente, levando a boca uma boa quantia de macarrão e fazendo um barulho que chegou a ferir os ouvidos da Haibara que ouvia tudo pela escuta na gravata do detetive.

– Ela está chegando… – Disse ele após finalizar sua ação perturbadora.

E de fato, ela chegou. Entrando apressada, com uma respiração pesada e suor correndo o rosto, a quarta integrante da equipe misteriosa: Yumeria Yoko.

Em meio a sua recuperada de fôlego, ela segurava pastas e arquivos em seus montes. No mínino um meio quilo de papelada. Para aliviar seu peso, ela colocou sua bagagem na mesa de centro, o que fez Aizu fechar sua expressão em desgosto.

– Aaaaah… Em casa, finalmente… – Suspirou ela enquanto tirava o casaco e jogava-o sobre a cadeira, tudo isso enquanto se dirigia a sua mesa.

– Já lhe informei que esta não é sua casa, Yoko-san. – Disse Mitsuzawa com um olhar de empatia a subordinada.

– E eu já disse que me sinto tão a vontade aqui que posso considerar minha casa! – Respondeu ela com o nariz empinado enquanto fingia emburrar a cara, que ao final da frase virou um meigo e infantil sorriso para sua superior que o respondeu em igualdade.

– Indiferente disso, estamos com visita. Caso não tenha notado… – Complementou, enquanto se levantava para pegar parte da papelada.

Yumeria pareceu estupefata e começou a verificar as redondezas até que seus olhos alcançassem Mouri Kogoro e o Inspector Megure, que a encaravam em estado neutro de espírito.

– Ah… AHHHH!! – Ela em sua surpresa se virou com pressa e derrubou a própria cadeira, que fez seu desespero aumentar. Tentando recuperar seu casaco que estava debaixo da mesa ela escondeu a parte superior de teu corpo dentro do móvel, que após, dizer em alto e bom som “Posso pegá-lo depois!”, tentou voltar à posição que estava antes, batendo com a cabeça com toda a força na borda de sua mesa de trabalho. De joelhos no chão, enquanto segurava o choro e a cabeça, dava para se ouvir seus soluços de dor.

Mouri ia começando a se levantar para oferecer ajuda, mas foi parado por Aizu que acenou negativamente a atitude. Coisa que ele não veio a entender o motivo.

Yoko tentou se levantar e usando a mão esquerda como apoio ela acabou agarrando uma bandeja de frascos, que iria cair sobre ela, se Mitsuzawa não tivesse travado o outro lado da bandeja com um estilete na alça no ponto mais interno do objeto.

Finalmente ela estava de pé, e de frente aos dois detetives. Que estavam surpresos por tudo que vira…

– Hahahaha… P-prazer em co-conhecê-los… Me chamo Yumeria Yoko…- Disse ela vermelha de vergonha com os olhos molhados. – Eu n-não sou se-sempre de-desajeitada assim, ju-juro!

“Mentira…” Pensaram os dois em sua expressão incrédula.

– O que traz os dois a-aqui? – Perguntou ela tentando fazer o incidente menos constrangedor.

– Eles vieram nos interrogar para amenizar sua angustia sobre o caso referente ao “Caos de Tokyo” e Kudo Shinichi. – Disse Aizu terminando seu macarrão instantâneo com tranqüilidade e uma cara limpa. Frase essa que gelou o sangue dos dois homens que não esperavam isso dele em específico.

– Aizu-kun… Não diga coisas tão… Presunçosas, no máximo diga que eles vieram saber como melhor nos fazer uma festa surpresa… Apesar de que isso faz com que ela perca o elemento surpresa, não é mesmo? – Finalizou Yumi com seu sorriso frio e calculado.

Estavam evidentes as suas intenções, então não fazia sentido esconder mais o motivo do porque eles estavam ali. Tendo isso em mente, Mouri recuperando a vida em seus olhos voltou-se ao Aizu.

– Permita-me questioná-lo mais uma vez, usando da pergunta do meu amigo: “Porque não nos fala de sua vida?”

Kurimu sorriu e com sua expressão de desdém característica, em ritmo começou a cantar:

– Nascido em São Cristovão, morador de Madureira, desde pequeno acostumado a subir ladeira…

– STOP! – Gritou Saiko em desespero. – Você não vai começar a cantar a música daquele músico brasileiro que a Yumi-san nos mostrou um dia desses! Só responda a pergunta! Você canta mal…

Aizu pareceu legitimamente ofendido, suspirou e disse:

– Me recuso… O máximo que irei permitir que vocês descubram sobre Minha pessoa é: amo “Lamém”, “Miojo”, “Macarrão instantâneo” e sorvete. Se quiserem me presentear com alguns sabores raros dos mesmos, poderei dizer mais sobre mim.

“Tirando o sorvete é tudo a mesma coisa…” Pensaram os dois decepcionados com a resposta.

Como, aparentemente, um dos quatro não queria cooperar, Mouri decidiu arriscar um “Approach” mais duvidoso.

– Já que você não quer falar sobre você… Permita-me tentar falar por ti… – Megure se assustou com essa frase. “Você me parece bem acordado Mouri-kun!”, pensou ele.

Mas ele não foi o único que se assustou com essa proclamação, todos na sala se interessaram inclusive a Yumi, que girou em sua cadeira para encarar o homem que estava prometendo o mais difícil.

Mouri começou a encarar a mesa do rapaz, que tinha na parte de cima, diversos potes de macarrão instantâneos abertos, com exceção de um. Na extrema esquerda, ele estava hermeticamente embrulhado em plástico e sua embalagem escrita em uma língua desconhecida por Mouri. Mas as cores da embalagem, verde e amarela, permitiriam um chute.

Além do lixão que, com certeza, para o jovem tinha significado. Existiam uns livros de balística, feridas de bala, medicina, psicologia e um aleatório e bem cuidado de culinária. O interessante é que eles estavam empilhados em ordem alfabética.

Fora esses objetos, a mesa estava impecável. Era impossível saber o conteúdo das gavetas, mas não era necessário. O que quer que tenha dentro delas estaria guardado com zelo. Deixando a mesa dele de lado, Mouri encarou o que seria o objeto de dedicação do mesmo no momento que eles entraram na sala.

A mesa de centro estava com folhas à direita do ponto de vista do Mouri, organizadas aparentemente pela pasta que as cobrias, não só cor e formato, como também, marca. E seguindo para esquerda viria: Conjunto de vidros de laboratórios organizados em fileiras por tipo e, aparentemente, tempo de uso; Uma bacia diversas sacolas etiquetadas com um letra imensa em destaque, novamente, de A à Z; Canetas, cadernos, borracha, corretivo, tudo separado e posto em um quadrado invisível sobre a pesa; E por fim, a papelada traga por Yumeria esparramada sobre o espaço final;

Mouri estava “pronto”, mas pela primeira vez, ele não tinha aquela confiança de “melhor detetive do mundo” que se encarregava de fazê-lo dizer suas teorias, seja ela as pressas ou não, sem medo de errar. Aquilo era uma aposta… Mas disposto a tomá-la, ele começou sua dedução.

– Se fosse para defini-lo em uma palavra seria: Metódico. – Ele encarou Aizu que se demonstrou inabalado pela palavra, fazendo Mouri ficar receoso de continuar, mas agora já era tarde. Tinha que não só explicar o raciocínio, como complementá-lo com mais descobertas. – Digo isso porque tudo que você faz possui uma organização. Deixa tudo ordenado, sejam até mesmo as menores coisas… Quando fora de recipiente você imagina um, como o caso desses materiais de papelaria, que você organizou em um espaço de área equivalente à bacia de evidências do lado. Aizu-san… Corrija-me se eu tiver errado: Você vem de uma família de requinte, não é mesmo? – Dessa vez, Kurimu levantou o cenho direito. Reação frágil, porém, para alguém tão sem expressão quanto o mesmo, era uma alegria gritante para Mouri ela existir. – Quero dizer… Mesmo sem ter a intenção de nos dar respostas você nos recebeu a sua frente com extrema educação, e suas palavras sempre são rebuscadas no sentido mais cordial possível. Você demonstra respeito pleno aos seus superiores, mostrando que é politizado, sem falar no seu gosto especial pela comida instantânea que, somente pessoas que só comem coisas melhores, poderiam ter… Afinal de contas, seria algo raro para seu paladar rebuscado…

– Continue. – Incentivou Kurimu, somente estendendo a mão em sinal de permissão ao monólogo.

– Outra evidência do seu extremo respeito para com seus superiores, está nesse macarrão instantâneo que aparenta ter vindo do Brasil. Alguém que goste tanto de “miojo” não teria uma coleção embasada somente em uma peça rara, certo? Provavelmente você permanece com ela aqui por ser presente da sua chefa… Ah, outra coisa que reforça a minha idéia de você vir de uma família de requinte está no tipo de literatura em sua mesa, medicina é um curso caro, sem falar quando especializado em balística. Você deve ter adquirido um gosto particular por culinária recentemente, já que esse livro de receita aparenta ser novo… Erm… Espero não ter esquecido nada…

Todos estavam ligeiramente, surpresos. Bem… Megure estava mais que surpreso. Ele queria dizer alto e bom som “Bom trabalho Mouri-kun!”, mas se conteve enquanto uma gota de suor fria percorria o detetive de bigodinho que encarava seu alvo de análise.

Após um breve silêncio, sem demonstrar qualquer reação, Aizu finalmente se manifestou:

– Meus parabéns, grande detetive dorminhoco Kogoro-san. Mas devo reclamar sobre dois pontos…

Mouri congelou. Dependendo dos pontos ele seria completamente desmoralizado ali, o que poderia interferir diretamente na última pessoa a ser interrogada.

– Primeiro: Não me considero metódico. Acho as pessoas a minha volta que são desleixadas em demasia; Segundo: Você não poderia ter feito sua dedução em ordem de tema?

Esse comentário tirou toda a tensão dos ombros do homem que se afundou na cadeira. Ele tinha conseguido, mas algo o fez se ajeitar de volta… Ele sentiu em suas costas um olhar frio e penetrante, que fez sua alma estremecer, ele virou-se para tentar descobrir a fonte, mas assim que virou a sensação tinha desaparecido. Tirando Aizu que permanecia sentado em sua mesa, os outros três estavam do outro lado da sala. Saiko aparentemente tinha voltado a mexer no armário… Quando ele tinha ido para lá?

– B-bem… Creio que você não falará mais nada sobre você, não é mesmo Aizu-san? – Perguntou Megure sem jeito.

– Vocês sabem minhas condições. – Confirmou o jovem firmemente. – Podem ir para a Yumeria-san, mas não creio que ela valha o tempo de vocês…

Essa frase parecia não só desconexa, como ofensiva e desnecessária. Ao perceber que ela seria a próxima, Yumeria Yoko começou a separar as cadeiras de forma desajeitada para receber os detetives. Usando a própria cadeira como oferta, os dois se sentaram esperando que ela fosse se sentar-se à mesa, mas a mesma esquecerá que estava sem o acento e foi direto ao chão, batendo com a nuca no móvel atrás dela, e novamente, proclamando soluços de dor.


Longe dos interrogatórios, um jovem garoto esperava por um ônibus que chegará a seu ponto. Entrando no veículo de forma descompromissada, ele sentou-se ao lado de alguém que, até o momento, estava vetando o caminho para o assento na janela, dando espaço exclusivamente para o moleque.

– Espero que você tenha um bom motivo para me chamar assim… – Disse o garoto sem tirar os olhos da frente do ônibus.

– Eu não viria de cara limpa encontrar com um dos meus inimigos se não tivesse. – Respondeu o jovem enquanto mexia no celular. – Devo admitir que você vai cumprir com suas promessas não é mesmo, detetive?

– Sim… Devo dizer que é um acordo muito bom para você. – Informou o garoto enquanto se encostava ao acento vazio a frente. – Então, pode me adiantar sobre o que se trata?

– Vamos dizer que após tanto tempo, a princesa anda apresentando um comportamento perigoso… – Disse o jovem ainda vidrado no celular.

Demorou um tempo para o garoto assimilar o que aquela frase implicava, mas assim que notou sua profundidade, ele encostou-se a seu local e segurou o colarinho do casaco branco do rapaz do seu lado.

– O que você quer dizer com isso Kid?! O que aconteceu com a Ran?! – Conan começou a deixar sua mente astuta trabalhar em mil locais, mas sem achar resposta, e essa falta de resposta dava a ele o desespero visível em seus olhos. Desespero esse que foi notado pelo ladrão do luar, que mantendo a “poker face”, continuou o relato.

– Fale baixo, não quero chamar atenção por um motivo óbvio… E quanto a princesa… POR ENQUANTO, só sua visita, do pequeno “Conan-kun”, já irá ajudar bastante. É uma situação delicada, mas nada que não possa ser corrigido. No pior dos casos… Bem… Você só terá mais dor de cabeça em relação a mim… – Disse ele travando o celular e guardando ele. Ele tentou sorrir zombeteira para o pequeno companheiro que não sabia distinguir piada de realidade, sua maior fraqueza para tipos como o Kid e sua parceira Haibara Ai. – Para acalmá-lo, porque não relembramos o acordo, afinal, esse tipo de processo lógico lhe agrada não?

Conan pensou um pouco como proceder, mas acabou concordando, porque não sabia quanto tempo ficaria nesse ônibus.

– Primeiro: Tudo que vejo ou descubro sobre Kaito Kid fora dos seus “shows” será terreno “neutro” e não poderá ser usado contra você; Segundo: Novamente, fora de seus “shows” sou obrigado a ajudá-lo a manter sua identidade segura, desde que isso não implique em ajudá-lo diretamente em um roubo; Terceiro: Irei lhe ajudar a achar a jóia que você tanto procura. Mas isso não significa que não possa ajudar a prendê-lo no ato do roubo; Esqueci de algo? – Concluiu Conan em um suspiro.

– Quarto: Você deve se referir a mim como Kaitou-niichan quando estiver comigo. – Disse Kid com um sorriso besta.

– Negado. – Respondeu de imediato.

– Tch, sem graça… Enfim… Como anda as investigações? Elas me interessam também, afinal de contas: “Ele possui uma jóia que pode me interessar.”

– No momento, Haibara e o Hakase devem estar ouvindo o interrogatório do Ossan com os novos membros da perícia. Eu só conseguirei novas pistas após ler os dados… Mas eles são altamente suspeitos.

– Hum… Entendo.

– Lhe perguntar… Porque você procura tanto essa “jóia”?

Kaitou pareceu pensar se deveria ou não dizer, seu maior mistério. A conclusão que ele teve foi o meio termo… Mas bem… Levando em conta quem era aquela criança pode se dizer que ele escolheu contar o motivo.

– Ela está diretamente relacionada ao Kaitou Kid anterior. Só isso. – Com seu “poker face” maroto, Kaitou colocou o gorro do seu casaco e se aconchegou no acento. – Tire um cochilo, vai ser uma viagem um pouco longa…

– Sei… – Disse Edogawa enquanto memorizava o caminho com seus olhinhos de criança.


Voltando ao interrogatório, a última pessoa, Yumeria Yoko. Ela já tinha se recomposto, e estava agitada brincando com seus finos e frágeis dedinhos enquanto esperava o início do questionário.

Megure dando voz à primeira pergunta, a mais básica e corriqueira naquele dia:

– Então, Yumeria-san, poderia nos contar sobre você?

– S-Sim! – Disse ela em um salto. – Q-quero di-dizer… – Tomou ar. – Claro…

Ela abriu uma de suas gavetas e pegou dois cartões de visita de dentro dela. Após oferecer o mesmo para ambos, ela ajeitou a postura e em um ar empresarial deu início ao seu monólogo:

– Meu nome, como já sabem, é Yumeria Yoko. Sou a mais nova do grupo, e diferente dos outros três, ainda não terminei minha faculdade. – Mouri e Megure pensaram em interromper para questionar a afirmativa, mas foram interrompidos pelos gestos com a mão do Saiko ao fundo. – Estou trabalhando com eles já tem mais de 6 meses. E quando ocorreu a transferência, imaginei que perderia meu estágio. Porém, a Yumi-sama fez um pedido formal para que eu fosse convidada a vir junto com o resto da equipe. Pedido esse que aceitei de bom grado, principalmente porque nossa estadia aqui está prevista para ser curta. Dando tempo deu retornar aos meus estudos em Okinawa, que estão “trancados” no momento para eu melhor aproveitar dessa experiência.

– Entendo… – Prosseguiu Megure. – E o que te fez escolher essa área?

– B-bem… Meu pai era policial. Especialista em caso de incêndios… Em suas histórias ele sempre me contava como era importante a análise do local onde ocorriam os incêndios, principalmente os criminosos. Que uma boa análise da perícia poderia não só ajudar uma investigação, como até mesmo sa-salvar o caso. Te-tendo isso em mente eu sempre quis ser essa… “He-heroína”… Então me dediquei a analisar as áreas do crime.

– Mas não consegue lidar bem com sangue… – Completou Aizu em sua mesa com uma anedota.

– E-e-eu es-es-tou me-melhor ni-nisso! – Gritou a garota que tremeu seu corpinho em constrangimento enquanto ficava vermelha de vergonha. – Be-bem… Uma vez no ca-campo eu gosto de utilizar do “BEA” para fazer meu relatórios…

– “BEA”? – Perguntou Mouri.

E, inesperadamente, quem respondeu foi Mitsuzawa com um perfeito inglês.

– “Behavioural Evidence Analysis”; método de análise criado por Brent Turvey. Seu método de análise possui quatro passos principais, e sua maior característica é que ele não se baseia em estatísticas. Surpreende-me um detetive renomado não reconhecer esse método, mesmo ele sendo uma… “Criança” comparado aos métodos de David Canter e ao do FBI.

Mouri só soltou uma risada sem graça e frouxa. Ele queria questionar os outros métodos citados, mas se sentiria fazendo papel de trouxa se o fizesse…

– Be-bem… Jus-justamente por eu não ter essas estáticas em mãos, achei que esse seria o método ideal para que eu me especializasse… Do-do mais eu sou do tipo de pessoa que se demonstra ser tí-tímida para estranhos, ma-mas conforme o tempo passa se a-abre. A-adoro coisas doces e filhotes… N-não me dou bem com fantasmas, as brincadeiras do Yamamoto-kun e com o Aizu-san cantando…

– HEY! – Protestou Saiko, enquanto Kurimu somente demonstrou seu descontentamento com uma expressão facial.

– Ah! N-não tenho problemas com a Yumi-sama, ela é uma ótima chefe… – Disse ela sorrindo sem jeito.

– Obrigada Yoko-san. Bem… – Puxando a atenção de todos com um sorriso leve que instantaneamente se tornou uma expressão séria e severa. – Creio eu que o interrogatório termina por aqui, não?

– Na verdade eu… – Kogoro iria pedir mais tempo, mas foi cortado de forma ríspida.

– Não é mesmo? – Disse Yumi cerrando os olhos. – Yamamoto-kun, por favor, seja educado e mostre o caminho a estes cavalheiros. – Concluiu ela com um sorriso sem alma.

Até mesmo Saiko que trabalhava sobre sua supervisão se demonstrou abalado pelo sorriso, e concordou em silêncio com a cabeça. Após agradecerem pelo tempo dado em uma reverência cordial, os dois homens foram levados até a porta pelo rapaz que os surpreenderam com uma proclamação:

– Ah! Me lembrei que tem uma garota bonita no departamento deles, vou usar dessa deixa para ir lá olhar. – Disse ele com um sorriso besta.

Tais palavras desconcertaram Mitsuzawa que iria protestar, mas desistiu ao ver a porta da sala sendo fechada as pressas.

– Oi oi… Tem certeza que você pode agir assim? – Perguntou Mouri impressionado.

– Hahahaha, não se preocupe, ela tem um bom coração apesar de suas palavras ríspidas, com o tempo ela me perdoa. – Ele dizia isso em bom tom para que, evidentemente, quem estava na sala de onde eles saíram o ouvisse, e conforme ele empurrava os dois homens para longe do local ele foi adquirindo uma expressão séria, a mais séria que ele já demonstrou até o momento. – E eu realmente quero dizer isso. – Disse ele em baixo tom.

Percebendo a interrogação na face dos dois homens ele suspirou e decidiu explicar.

– Não levem a mal ninguém lá. Todos eles possuem circunstâncias especiais. Principalmente o Aizu. Ele era de fato de uma família nobre e foi treinado para se tornar um político. No início, a família apoiou seus estudos, mas quando ele informou que não queria seguir carreira política para se tornar um policial, foi deserdado de imediato. Foi ai que ele conheceu pela primeira vez o “miojo”, por assim dizer…

– Entendo… Foi por isso que ele não queria falar sobre si… – Ponderou Megure.

– Bem, quanto a Yumeria… Ela é como uma mascote para a Yumi-sama… Ela a protege com todas as suas forças. Talvez ela a tenha como uma irmã mais nova, não sei… Então seria óbvio que ela ficaria mais ríspida quando vocês a pressionassem, principalmente com esse jeito atrapalhado dela de animal indefeso. – Ele tentou rir forçadamente de leve, mas sabia que não era o caso para isso. – A realidade é que eu, particularmente, não confio na Yoko-chan. A Yumi-sama eu sei que tem um bom coração, mas aquela garota… Ela me dá uma má “vibe”. O pai dela morreu em um incêndio, não que seja surpresa devido a seu ramo, mas ela… Parece não ligar… E isso me incomoda profundamente… Do mais, se você ver que ela está se atrapalhando toda, não ajude, ela ficará mais atrapalhada pelo constrangimento e o efeito será o oposto a ajuda. Experiência própria. – Dessa vez ele riu legitimamente. – Agora, como recompensa pelas minhas informações secretas… – Com uma cara séria ele encarou os dois enquanto desacelerava o passo, os fazendo engolirem em seco. – Poderiam me apresentar a tal “Saitou”?! Me falaram que ela é muito bonita! – Concluiu ele abrindo um largo sorriso enquanto ria escandalosamente, deixando os dois atônitos.


A viagem tinha sido longa, eles devem ter pegado pelo menos uns dois ônibus, mas eles não saíram do perímetro da cidade. Provavelmente, só era fora de lugar mesmo. A questão é que eles tinham chegado a uma casa simples, como qualquer outra. O que deixou Edogawa Conan legitimamente surpreso.

– Bem vindo a um dos meus esconderijos. – Disse Kid abrindo um sorriso.

– Essa é a sua casa? – Concluiu Conan ignorando o mago do luar que perdeu a compostura por causa disso.

– Hai hai… Mas ninguém precisa saber disso, certo?! – Disse ele aproximando o rosto tentando esconder a raiva atrás do sorriso.

– Sei…

Não era a resposta que ele queria, mas Kid decidiu deixar passar. Tirando as chaves do bolso ele chegou até a porta e ia começa a abri-la quando algo o fez parar e dizer, de costas para a criança, palavras pesadas.

– Se eu fosse você se preparava, o que você verá poderá lhe chocar para sempre…

Conan começou a suar frio… O que poderia ter acontecido com a Ran na casa do Kid?! Ele sabia que apesar de ser um ladrãozinho metido, era uma boa pessoa e não acreditaria que ele faria algum mal a qualquer um. Ou seja, o que quer que tenha acontecido estava fora do seu controle…

A porta foi aberta, o coração do jovem detetive pulou uma batida, a adrenalina foi a mil, sua mente trabalhava como nunca. Ao começar a ter visão, do que era uma casa completamente normal, dava para se ver a cozinha ao fundo, e alguém estava fazendo algo lá… Era a Ran fazendo a janta?! Por quê?

Percebendo a entrada do Kid na casa, Ran se virou e abriu um sorriso aconchegante que já era comum ao garoto que acompanhava o morador local. Porém, ela não tinha notado a criança ainda e disse com a maior naturalidade:

– Bem vindo, Kaitou-kun. Hoje vou fazer omelete, espero que goste. E… – Nesse momento ela percebeu quem estava atrás do rapaz e acabou deixando cair os utensílios de comida, e com o rosto enchendo e lágrimas ela correu para abraçar a criança que estava atônita. – Conan-kun! É você mesmo Conan-kun?! Eu estava com tanta saudade, como anda todo mundo?!

Querendo responder a perplexidade na expressão do rival, Kid soletrou em mudo algo que fez o mundo de Kudo parar… “Síndrome de Estocolmo”.