Capítulo II – Mouri Kogoro (Case Part)

Capítulo II
Mouri Kogoro
Case Part

Enquanto voltava para casa na tarde daquela noite, Edogawa Conan tentava assimilar tudo que vivera na casa do seu cúmplice Kaitou Kid. Era inegável que sua presença era necessária, caso contrário, Mouri Ran perderia as bases lógicas de sua origem ou do local a qual pertence. Ela não podia sair na rua, estava atrelada aquela casa, para sua própria segurança. No início, era o medo que “ele” fizesse a ligação do Kudo a ela, depois, após a lista das pessoas que seriam os participantes “cegos” dos jogos, o motivo do medo era por que ela é filha de Mouri Kogoro.
Porém, por estar com sua liberdade limitada, ela acabou tendo como um vínculo ao mundo e a realidade externa, somente o ladrão do luar, que por empatia, aos poucos foi dando regalias a alguém que antes estava isolada basicamente a um quarto. Essas regalias foram dando a idéia errônea a Ran de que ela estava sendo salva por ele, e assim, criando um vínculo sentimental “torto”…
Sua cabeça doía… Muito… Reconstruir aquele momento, em busca de pistas a uma solução… Davam-lhe vertigem… Talvez soltá-la e convencê-la a ficar com a Eri… Não… No momento nem se quer o Mouri sabe que está sendo visado, e não tem como saber que tipo de jogo ira se desenrolar… Talvez Kuro pegue alguém próximo como refém… Tendo isso em mente, a Eri também está em perigo, porém ela é uma mulher astuta e vive em um ambiente bem guardado em sua boa parte do seu tempo.
Será que ela ficaria na casa da Sonoko? Não… Sem querer ofender a corporação Suzuki, lá é tão aberto quanto qualquer outra casa na visão de um grande bandido… De fato, não há lugar mais seguro para a Ran que a casa do Kaitou Kid. Ela foi aceita até mesmo pela colega de classe do mesmo… Que é uma surpresa ser filha do homem que o caça tão firmemente.
Seria cômico, se não fosse trágico… “Síndrome de Estocolmo”… Muitos têm a idéia errada sobre a síndrome… Pensam que ela é só referente a quem é maltratado por aquele que a colocou em cativeiro e mesmo assim, cria vínculo afetivo… Mas não é isso.
A síndrome caracteriza-se por três sintomas principais em momentos de crise, se não me falha a memória… Sentimentos positivos da vítima ao captor; Sentimentos positivos do captor para com a vítima; Sentimentos negativos da vítima para com aqueles que gerenciam a crise…
Adicionando a isso, parece que, por causa da perda de “Kudou Shinichi”, a Ran está vendo no Kid um substituto emocional, principalmente que ele é naturalmente parecido comigo… Por isso ele disse que na pior das situações eu teria mais trabalho com ele… Arg… Só de lembrar…
“ – Conan-kun! É você mesmo Conan-kun?! Eu estava com tanta saudade, como anda todo mundo?!
– Ran-neechan… O que você está fazendo? – Perguntou o garoto atônico.
Ela sem entender o motivo da pergunta ponderou um pouco, até que chegou uma conclusão.
– Ah, isso? – Perguntou apontando o avental. – Estou fazendo omelete, da última vez o Kaito-kun não ficou muito feliz com o peixe, quem diria que existiria um japonês que não gostasse de peixe!
Ela rira meigamente enquanto tampava a boca em tentativa de alto controle, risada esta que se ampliou quando Kaito disse que não era um crime.
– Erm… Não… Porque você está fazendo a janta? – Ele não estava conseguindo acreditar.
– Ué Conan-kun! O Kaito-kun é bastante ocupado sabe… E ainda assim está cuidando de mim, não custa nada eu fazer a janta para ele, não é mesmo? – Perguntou ela inocentemente.
– Você… Não está… “Presa”… Aqui? – As palavras doíam… Porque eram verdades que não deveriam ser necessárias de serem ditas.
– No início até que eu pensava assim… Mas depois eu entendi que era para o meu bem. Lá fora está muito perigoso, não? E foi o Shinichi que pediu ajuda do Kaito-kun antes dele… – Ela não queria concluir esse raciocínio, e sacudiu essa lógica para longe junto com a cabeça. – Aliás, porque você não fica aqui também? Tenho certeza que o Kaito-kun não vai se importar. Né? – Disse ela se virando para o “anfitrião” em seu sorriso infantil. Que só conseguiu soltar um “É…” fraco.
– Não preciso Ran-neechan… Se eu ficar aqui, quem é que vai cuidar do Shonen Tantei Dan? – Era uma desculpa, e dizê-la doía mais que qualquer mentira que ele já tenha dito. – Eu só vim porque o Kaito-niichan disse que estava com você na casa dele, no início eu não acreditei, mas… Você não dizia para ninguém onde estava. Kogoro-ojisan está preocupado, e muito…
– Eu imagino que sim, mas…
Nesse momento a campainha tocou, todo mundo no local ficou em silêncio, e uma batida na porta violenta se seguiu. Após mais um curto silêncio, deu para se ouvir uma voz feminina gritando:
– KAITO! EU SEI QUE VOCÊ ESTÁ AI! RESPONDA! PORQUE VOCÊ NÃO ESTÁ INDO NA AULA?!
“AOKO?!” Pensou Kid perdendo instantaneamente sua “poker face”, Kudo ainda estava perdido em pensamentos, e não se importou muito naquela que batia a porta, mas a primeira pessoa que teve uma reação o deixou mais perdido que antes. Ran se levantou e foi até a porta, para abri-la. Kaitou tentou segurá-la pelo braço para impedir, mas era tarde de mais. Como a porta não tinha sido trancada, ela só tinha que girar a maçaneta, e “tcharam” Aoko com sua mão levantada, pronto para dar uma segunda pancada na porta ficou boquiaberta com quem a recebia.
“Quem?” estava estampado em sua face, e ela levou essa interrogação até o colega de turma que estava paralisado logo atrás da garota. Ainda perdida, ela encontrou uma criança a qual outro “Quem?” foi levantando em seu rosto, e ficariam assim, em silêncio por um bom tempo se Ran não tivesse aberto a boca.
– Boa tarde, sou Kuroba Ran, prima do Kaito-kun, e você seria? – Disse ela com um sorriso meigo e natural, ao ponto de fazer Conan perder as forças na perna… “Ela está encobrindo ele… Não que seja ruim na devida situação, mas…”
– Pri-prima? – Aoko tentou processar a informação, mas acabou trabalhando no automático. – Aoko Nakamori, prazer em conhecê-la! E esse garoto seria? – Disse ela abrindo um sorriso forçado.
– E-edogawa Conan. Eu vim visitar a Ran-neechan e o Kaito-niichan, hahaha…- Ele respondeu o sorriso forçado com um igualmente complexado. E todos acabaram por dançar a música tocada por Ran.
– Aoko-chan então! O Kaito-kun já me falou de você algumas vezes! Você é a colega dele da escola, não é? – Dizia ela com seu sorriso inocente enquanto juntava as mãos e abria espaço para que ela entrasse.
– Hum? Ah! Sim, sou sim… Sinto muito, mas é a primeira vez que ouço falar de você… Erm…
– Ran! Pode me chamar de Ran. Mas, môoo… Saber disso me chateia Kaito-kun. Por causa disso você terá uma porção menor da omelete, hunf… – Complementando com uma cara emburrada ela se moveu em direção à cozinha. – Vai querer que eu faça um pouco para você Aoko-chan?
– Não obrigada… Eu só vim saber o porquê do Kaito não estar indo a aula… – Ela disse indo esperando a resposta do até agora mudo colega, que iria responder, porém, novamente a única que estava agindo de forma “natural” o fez.
– Provavelmente é por minha causa… Infelizmente eu estou precisando de ajuda com umas… Questões… Mas achei que ele teria informado o colégio… Kaito-kun. – Após confirmar que ele a encarava, com um leve sorriso ela deu o veredicto. – Menos omelete para você.
– Daqui a pouco eu nem irei jantar! – Reclamou ele finalmente recuperando sua atuação.
– Ora, tem o peixe de ontem se você quiser, e é bom que sobra mais para mim e o Conan-kun, não é mesmo Conan-kun?- Disse ela enquanto se curvava para o garoto que não conseguia mais fingir um sorriso, somente uma cara de pena e empatia que a Ran não conseguiu compreender.
A conversa se estendeu, até o momento que Aoko se foi. Edogawa jantou com os dois e atualizou a Ran daquilo que era cabível dizer. Muitas vezes ele quis dizer “Shinichi-niichan está vivo! Volte para casa!”, mas se controlou… Kaitou raramente falava, não parecia aquele mago esnobe que encantava multidões.
Após o necessário, Conan se despediu e Ran demonstrou profunda tristeza com esse fato, mas em nenhum momento cogitou ir junto, apesar de ter oferecido que pelo menos ele dormisse ali. Negando a oferta, Mouri demandou firmemente, que pelo menos, Kid o levasse até em casa, já que Tokyo estava muito perigosa.
Ele concordou, e como se quisesse dar a facada final no pequeno detetive, ele deu a chave a ela, pediu que trancasse, e se algo acontecesse ligasse. Na pior das hipóteses, fugisse. Ela concordou com os conselhos, e assim que os dois saíram da casa, a porta foi trancada… Ela não precisava nem cogitar fugir, o Kid deu a idéia diretamente, e mesmo assim, ela ficou.
Para aliviar a tristeza que fazia a criança aparentar ter envelhecido de dor. Kid disse que caso ela tentasse fugir, tinha aliados de olho na casa para segui-la. E o motivo dessa informação, não era dizer que estava garantida a segurança dela, mas sim, que ela ainda poderia querer fugir do cativeiro.
No ônibus Kid tentou amenizar o impacto daquela tarde, respondendo as perguntas do companheiro de forma tranqüila, para passar a sensação que “ainda” estava tudo bem.
– O quanto ela sabe sobre você?
– Ela sabe que sou Kaitou Kid, mas acredita que Kuroba Kaito é mais um associado que permitiu que eu assumisse sua aparência e casa para abrigá-la.
– Por isso daquela resposta dela… Mais alguma coisa?
– Que eu estou fazendo isso a pedido do Kudo Shinichi. Em nenhum momento eu dei a certeza de sua morte, porém, nunca fiz o contrário também. Ela assumiu que de fato você está morto com a notícia após ter passado um mês do incidente na ponte… Foi a partir daí que ela…
– Que ela começou a se prender a você, o último que teve ligação direta comigo… E conseqüentemente…
– Começou a apresentar a “Síndrome de Estocolmo”…
Eles ficaram um pouco em silêncio, pensando na situação.
– Você acha que…
– Que tem solução? Bem… Acredito que quando você terminar esse jogo ingrato com o Kuro, e puder novamente se mostrar “vivo” para ela, a princesa irá recuperar a realidade nos seus olhos, porém…
– Com sequelas… Certo?
E novamente o silêncio, mas dessa vez ele não foi quebrado até a “boa noite” de despedida quando Conan desceu no ponto para ir andando até a casa do Agasa Hakase. O que nos retorna para o agora.”


– Demorou! – Reclamou a pequena de cabelos castanhos. – Eu tentei te ligar diversas vezes, onde você estava? Eu e o Hakase até mesmo fizemos uma analise da nova equipe forense, nosso tempo é curto, não?
Normalmente a esse ponto, Conan já teria respondido a pelo menos uma pergunta. E Haibara exigiria sua atenção, mas percebeu que o parceiro estava abalado com algo.
– O que aconteceu? – Perguntou ela com uma voz amável e em suave tom de legitima preocupação e carinho.
– Hum…? Ah… Nada… Não se preocupe. – Como se dissesse isso para si mesmo, Kudo tentou focar sua mente naquilo que ele poderia solucionar no momento. – Me fale sobre os suspeitos…
Ela iria impedi-lo de seguir em direção ao computador e anotações que estavam sendo segurados pelo Agasa que estava igualmente preocupado, mas percebeu que pressioná-lo sobre o que quer que o incomodasse no momento só pioraria a situação. “Talvez após ele trabalhar um pouco ele consiga digerir o problema melhor…” Pensou ela tentando por sua “pose” de durona e ficar séria.
– Primeiro a líder do grupo, Yumi Mitsuzawa…
E assim, eles passariam a noite, trabalhando em cima do perfil dos suspeitos mais prováveis de serem os atores do próximo ato. Levando em conta todas as possibilidades, tentando perceber qualquer frase torta, qualquer mentira, duplo sentido, qualquer coisa. Não existia um crime ainda, então era somente no perfil de cada um que eles poderiam pensar… Mal sabiam eles, que só teriam aquela noite para se preocupar exclusivamente com o perfil.


Tokyo, a grande metrópole, porém, diferente das outras grandes metrópoles como New York, que nunca dorme, esta estava em sono profundo.
Ela era agora dos mestres da noite, dos seres que andam despercebidos até mesmo pelos membros do seu próprio clã. São bêbados, fanfarrões, bandidos, entre outros. Se escondendo da luz tanto do sol, quanto da vida dos que seguem o seu rumo de cabeça erguida. Muitas vezes, nem se quer davam valor, assim como muitos, para os que automatizados passavam o seu dia.
Para aqueles que espreitam a escuridão da cidade, eles são os protagonistas de uma trama infinita e o resto, figurantes. Talvez isso seja fruto da solidão que os cercam, tirando raros compatriotas encontrados no vazio, somente o silêncio das construções e o piscar das lâmpadas tão oscilantes os acompanham.
E é no meio dessa selva silenciosa que os predadores se locomovem e preparam seu terreno, suas armadilhas, seu show. Troféus de um metro de altura foram entregues a diversos lugares, cobertos em uma caixa com um imenso laço vermelho. Caixas pesadas e frias de metal. E para cada lugar a onde esse troféu deveria ser entregue, um caminhão chacoalhava timidamente pela penumbra das luzes amareladas e fracas. Mesmo que vistos fora de hora, algo tão “público” assim raramente atrairia a atenção dos sórdidos. Algo tão simples externamente, e ao mesmo tempo, tão chamativo. Não seria recompensador, a não ser para o festejo dos “normais”. Presentes de aço entregues a estação, ao jardim, ao teatro, as ruas.
Tudo cuidadosamente disposto com carinho para o público que receberia tal presente com olhos curiosos e alegres, fotos e mais fotos, compartilhamentos e questionamentos online sobre o objeto que os fascinava em sua simplicidade.
Mal sabem eles, o povo em geral, que não há presente sem remetente. E quando esse nome, esse papel, está em falta, se suspeita dos gregos. E mesmo que fossem os gregos, seria melhor que aquele que de fato articulou o embrulho, cujo nome combinava com as intenções e com a alma. Kuro deixou espalhado seu desejo que em um tic-tac esperou no silêncio do seu confinamento o grande show.


Era cedo quando Conan voltará para a agência do grande Mouri Kogoro, e apesar do horário, o mesmo não se encontrava no local. Verificando a secretária eletrônica do telefone em sua mesa, era claro que o Inspetor Megure tinha ligado mais cedo… Bem cedo…
A chamada marcava as 5:38 da manhã. E aparentemente durará pouco… Conan ainda não tinha dormido, mas sua preocupação não permitiria que o fizesse. Em busca de uma direção, ele tentou ligar para o Ossan, que deixou a chamada em aberto, até que caísse na caixa de mensagens. Eram 9 horas… Já tinha dado um bom tempo. Tendo isso em mente, ligou a televisão na expectativa de obter a resposta. E felizmente a conseguiu.
No jornal matinal era informado de presentes de metal espalhados pelo centro da cidade e que a polícia estava montando um cerco entorno do mesmo com esquadrões anti-bomba. O motivo: O tinir de um relógio era audível.
Os locais já descobertos com os misteriosos embrulhos eram: Quatro na estação de Tokyo; Dois em sua redondeza; Um no jardim externo do Palácio Imperial; Um no teatro de Kabukiza; E mais um no meio da rua que iria a encontro com a Avenida Shin-Ohashi-Dori;
A apresentadora deu o alerta, que caso mais algum presente fosse encontrado, era para ser informado a policia e que deveria manter-se distância segura dos mesmos.
Edogawa já tinha as informações necessárias. Com seu skate e telefone em mãos, ele se dirigiu a estação de Tokyo. Afinal… Era lá que tinha mais dessas embalagens. Ele ligava para a parceira, que assim como ele, não dormirá muito. Porém, estava mais bem disposta, pois trocava em turnos com o Agasa Hakase no auxilio das informações ao pequeno detetive.
– Haibara!
– Bom dia… – Respondeu ela em um bocejo.
– Kuro fez sua jogada!
Essas palavras espantaram o sono da garota melhor que qualquer café.
– Você tem certeza?!
– Sim… Ligue a televisão que você verá a notícia. Estou indo atrás do Occhan. Fique ligada na TV para mim, qualquer coisa nova me ligue.
– Okay. – Respondeu ela já esperando o telefone ser desligado. Ela ligará a TV e começou a se servir de uma caneca de café. O que Kuro estava planejando?
– Kuro… Maldito… Não… Não foi o Kuro… – O sangue até agora adormecido de detetive do garoto começou a se despertar.
“Não era esse o roteiro para os jogos…” Pensou o garoto enquanto desviava dos veículos em alta velocidade.
“Eu não direi quando a partida irá começar, nem quanto irá durar. Mas será fácil perceber quando acabar. A seguinte só irá começar com o fim da anterior. Não necessariamente logo em seguida. […] e não serei eu a administrá-las.”
“Alguém iniciou essa partida… Mas quem?” Ele tentava traçar o perfil dos suspeitos em sua mente, mas era em vão… Poucas pistas…


Demorou um tempo até ele chegar à estação de Tokyo. Ela estava lotada e cercada de policiais por todos os cantos. Era quase impossível se infiltrar no meio da grande barreira feita pelos homens que buscava a segurança da população. Ele só precisava de um conhecido, uma pessoa para chamar o nome e distraí-los, alguém como…
– Detetive Takagi! – Gritou o garoto que, ao fazê-lo, fez os policiais encará-lo, e como o Takagi respondeu em igual tom “Conan-kun?!”, os homens fardados, instintivamente viraram para a origem da voz atrás deles, e assim, criando a brecha para a criança correr em direção ao bom amigo oficial que tentou repreender a atitude do garoto, como sempre, em vão.
– Detetive Takagi, você viu o Kogoro-ojisan?
– Ele está com o Inspetor Megure tentando analisar uma dessas caixas em frente à estação. – Disse ele apontando para a estação um pouco mais a frente, onde muitos homens do esquadrão anti-bomba se aglomeravam.
– Existe alguma dessas caixas dentro da estação?
– Não. Estranhamente, apesar de elas parecerem ser bombas, estão todas do lado de fora da estação, quatro a cercam, porém a uma distância aparentemente segura das paredes… Então mesmo que explodam, desde que não tenha ninguém por perto, não devem causar grandes estragos.
“Estranho… Se esse for o plano inicial do aliado do Kuro, não há vítimas em potencial… E caso elas explodam, seria um ‘empate’ seguindo a premissa do mesmo… Será que…”
“Independentemente de quem estiver vencendo, mas claro, quem estiver na frente acabará determinando o final… E tenha certeza. Empate é o pior resultado.”
“Ele está querendo forçar o empate?! Não faria sentido uma disputa se ele o fizesse…”
Com essa preocupação em mente, o garoto correu em direção apontada pelo detetive que clamou seu nome em vão. Ele corria em direção a Mouri Kogoro que estava próximo de uma das caixas a analisando somente com os olhos.
– Ojisan! – Gritou o garoto enquanto se aproximava.
– Conan-kun?! – Respondeu Megure surpreso… Bem… Nem tanto. – Quem deixou você entrar?
– Me desculpe Inspetor Megure, ele correu em direção ao Mouri-san por conta própria. – Disse Takagi recuperando a compostura retirada pela breve e inesperada corrida.
– É que… – Conan iria se explicar quando recebeu um soco na cabeça do Kogoro que sem dizer uma palavra, apontou para fora do círculo.
“Ossan…?”
Takagi iria começar a levar Conan para fora, quando o relógio da estação indicou às 10 horas e começou seu informativo. Em meio ao barulho do mesmo, as pessoas próximas as caixas encararam atônitas o embrulho se abrir, exibindo o que parecia ser um troféu com uma cobra no meio com sua cabeça apontada para o céu. Em sua base tinha um letreiro eletrônico que após um instante exibiu algumas palavras.
“Mouri-san! Mouri-san! Hoje estamos em Sodoma, amanhã à noite em Gomorra, serás que tu poderás impedir que Deus desça com sua ira?”
Após essa mensagem enigmática, um contador de 2 minutos e 40 segundos deram início. Todos começaram a se afastar do objeto que possivelmente explodiria, mas pararam ao perceber que algo era jogado no ar com uma pressão absurda. Saindo da boca da cobra, dando início a uma chuva fedorenta… Um cheiro particular cobria todo o ambiente, e por causa da pressão do jato, se espalhava para além da barreira e ia até o publico que confuso se banhava naquela água misteriosa.
“O que é isso? De onde eu lembro esse cheiro… E essa frase… ‘Sodoma’ e ‘Gomorra’… Esses nomes não me são estranhos… E essa contagem de número estranho… 2:40 minutos…”
O sangue congelou, ele entendeu a mensagem, Conan ia gritar o alerta, o que era necessário ser feito, mas antes de fazê-lo, sentiu um olhar penetrante sobre suas costas. Ele buscou rapidamente a origem, mas não a encontrou… Ou melhor… Ela não vinha dali… Ela imaginou aquele olhar… Era um alerta do seu subconsciente…
Quem deve descobrir o significado dessa frase e avisar as pessoas, é ninguém mais que: Mouri Kogoro…


Mas como fazer o homem perceber? Como dar as pistas necessárias?
“Já sei! Se eu…”
Seu raciocínio foi cortado pelo Inspetor Megure gritando:
– Takagi! Colete parte desse líquido e leve para o laboratório! Chiba!
O oficial que estava ao lado do Shiratori iria à origem do chamado, mas foi parado pelo próprio colega que deu voz a ordem:
– Peça que aumentem a distância do cerco. Para que as pessoas saiam da área da “chuva”. Ah! Ligue para os bombeiros… Talvez seja necessário que eles ajudem com a limpeza.
Chiba demorou a assimilar a ordem, mas assim que entendeu o porquê, prosseguiu “in pronto”. Essa ação do Shiratori não era, em hipótese alguma, confrontar o Megure, mas era para a sua própria segurança. Ele, que foi afastado do cargo chefe, não podia assumir essa posição de autoridade. E Megure compreendeu. O largo homem pegou seu celular e ligou para Sato que estava em outro lugar.
– Como está o presente ai?
“- Ele se abriu e começou a jogar um líquido fedorento… Apareceu uma mensagem estranha também para o Mouri-san… Não estou gostando disso.”
– Ai também hum… – Ele pensou um pouco e foi informar o Shiratori. – Inspetor Shiratori, a mesma situação se repete onde Sato está.
– Obrigado Inspetor Megure, passe as mesmas ordens a ela.
– Sim! Sato peça para aumentarem a distância do cerco, para que os civis fiquem longe da área da chuva e ligue para os bombeiros, eles podem ser úteis ai também.
“- Sim senhor!”
“Com essa conversa, já deu para se ter noção de que nos outros pontos a situação é a mesma… Mas o problema não é somente se estão recebendo ainda a chuva ou não… E sim se o líquido daqueles que se molharam ainda está conectado com a fonte… Bem… A área já foi condenada…” Pensou o garoto que ia fazer sua singela jogada.
– Ai ai ai ai ai! – Gritou Edogawa. – Essa água queima!
– Agora que você falou… – Ponderou Takagi enquanto segurava um vasilhame para coletar o líquido que caia. – Esse líquido parece ácido… – Colocando um pouco da misteriosa água na ponta da língua ele deu uma estremecida e uma cara de desgosto. – Que gosto horrível!
– O que você está fazendo? E se for veneno… – Perguntou Mouri incrédulo com a ação imprudente do detetive.
“Perceba logo! Alguém! O tempo… Quanto tempo… Quase um minuto!”
Conan sentiu o sangue arrepiar, danem-se as conseqüências! Ele tinha que tirar todo mundo de perto do líquido! Já ia puxando o ar para gritar, quando foi interrompido novamente, mas dessa vez por Mouri!
– TODO MUNDO PARA LONGE DESSE LÍQUIDO! RÁPIDO! – Ele gritou em desespero quando o mesmo começou a correr para longe daquele troféu.
Os policiais não entenderam o porquê do desespero. Para eles que estavam bem cobertos com seus trajes de batalhão, era somente uma água fedorenta. Eles não sentiram a pele queimar, não sentiram o gosto horrível como o Takagi na ponta da língua que se contorcia em ardência.
– INFORMEM TODOS OS POLICIAIS PRÓXIMOS AOS OUTROS PACOTES TAMBÉM! – Gritou o homem que chegava já próximo das câmeras em direção dos inspetores. – Você! – Disse ele ao segurar os ombros da repórter que estava gravando tudo. – Isso é ao vivo?!
– SIM! – Respondeu a mulher em sobressalto.
Virando para câmera, Mouri Kogorou disse com extrema seriedade.
– Todos que virem essa caixa se afastem! Não se deixem molhar! Assim que possível se lavem!
Dito isso deu um tapa nas costas do câmera e continuou a correr para se afastar. Essas palavras e esses gestos foram o suficiente para fazer todo mundo correr para longe junto…


Desespero sem explicação, um pequeno caos que se espalhou em alguns pontos da cidade. Todos começaram a se reunir em estabelecimentos não muito distante do local, mas longe o suficiente do “líquido perigoso”.
“Ha ha ha ha ha… Essa é só a primeira parte… Não tem problema correrem da morte. O estrago já está feito. E o interessante será depois…”
Dizia alguém ao ver o que se passava pela TV. Seu sorriso era calmo, sua postura solene, seu desejo único… Talvez não tão único. Porque Kuro também via tudo de outro ponto da cidade e se alegrava infinitamente enquanto girava em sua cadeira em gargalhadas.
– Está vindo! Está vindo! Em 30 segundos! O CAOS! – Sua gargalhada era seca, como se segurasse fortemente a não expor sua loucura.


“É inevitável o estrago… Mesmo que eu fizesse algo em relação a um dos troféus… Seriam impossíveis com todos… 2:40 minutos é muito pouco tempo para fazer algo… Podemos até ter evitado mortes, mas…”
Conan encarava o lado de fora enquanto seus pensamentos vagavam conforme se secava com um lenço, tirando o excesso.
– Mouri! Para que esse desespero todo?! Descobriu algo? – Perguntou Megure enquanto se aproximava do amigo.
– De fato Mouri-san, eu sei que não deveríamos ser imprudentes, mas apesar do cronômetro e do “tic-tac”, não parecia ser uma bomba… – Proclamou Inspetor Shiratori enquanto endireitava suas roupas.
– Eu tenho medo que mesmo aqui não estejamos seguros… – Disse Mouri respirando pesadamente olhando ao longe um local desolado.
Todos tentaram entender o motivo da preocupação, mas o raciocínio foi interrompido pela sirene dos bombeiros.
– Droga! Chiba ligue para os bombeiros e peça para que não se aproximem! – Gritou Megure, que novamente, instintivamente, se pôs no comando. Quando Chiba pegou o telefone, e começou a ligação faltavam 10 segundos.
O caminhão tinha parado próximo a chuva. Os bombeiros que vinham pendurados ao lado do caminhão se assustaram com o que sentiram e começaram a correr. O motorista saiu do veículo sem entender o motivo e levantou a mão para receber o líquido misterioso, mas diferente dos policiais, reconheceu de primeira o cheiro. Ele entrou de volta no veículo e na hora que o ligou, o contador chegou à zero…


Em um ruído agudo e poderoso, o troféu anunciou que seu objetivo estava para ser cumprido… Da boca da cobra, cujos olhos agora se iluminavam, uma pequena chama foi feita, e somente isso era necessário para que o querosene entrasse em efeito cadeia e o fogo fosse jogado aos céus com toda sua força. Uma imensa torre de chamas se estendeu aos céus e caiu cruelmente sobre o chão, que percorreu a trilha criada pelas pessoas que se molharam inocentemente do composto que estava diluído para não ser tão facilmente notado.
As chamas percorriam caminhos sinuosos em alta velocidade como serpentes famintas. O fogo se alastrava como uma besta demoníaca em busca de suas presas. Presas essas que gritavam escondidas em instalações longe da fonte, presas essas que começaram a correr em pavor de que as chamas os alcançassem, presas essas que só não estavam condenadas porque conforme elas corriam para longe, a quantidade de querosene no chão diminuía e com isso a trilha do fogo. Mas era melhor que permanecessem em fuga. Porque mesmo que lentamente, as chamas se estreitariam por entre as instalações, as árvores poucas da cidade, pelos veículos, através de qualquer coisa que pudesse servir de combustível. Explosões começaram a surgir em meio ao mar vermelho raivoso, jogando sua malevolência para novos cantos. Era uma aleatoriedade assustadoramente incontrolável e estranhamente precisa. Para tanto estrago não era preciso muita coisa… Somente um largo presente, com querosene suficiente para três minutos e um mecanismo para dar início. A população curiosa, as características da cidade, o próprio ambiente daria conta do resto…
Além de tudo isso, outra coisa chamava atenção em meio aquele caos flamejante. O caminhão de bombeiros que saiu do meio de tudo aquilo cintilava em repúdio ao seu inimigo natural. Completamente coberto, ele acelerava como um touro raivoso sem medir para onde ia, totalmente perdido e sem visão, cambaleando por entre as chamas. Além dele, quatro pessoas, como tochas vivas correram para fora do epicentro, mas diferente do veículo, elas sabiam para onde correr. Para os gritos de pânico.
– Água! Tragam água! Temos que salvar aqueles homens! – Gritou Mouri.
– Se tiver algum policial que não foi molhado pelo líquido, vá guiar os bombeiros para cá! RÁPIDO! – Ordenou Shiratori.
E assim foi feito. Poucos policiais aos berros correram para os homens que se sacudiam violentamente tentando espantar as chamas. Somente quando os policiais chegaram perto eles começaram a entender seus gritos e os seguiram. Conforme eles os seguiam, o rastro de fogo ia se espalhando. Pontos vermelhos surgiam aleatoriamente no chão. Além do grito de agonia, eles começaram a pedir por “cobertores”.
Takagi entendeu o pedido. E pediu pela busca dos mesmos. Nessa situação, cortar a alimentação de oxigênio do fogo é melhor que simplesmente tacar água na esperança de extinguir as chamas.
Foram muitos esforços, tanto daqueles que estavam acompanhando a luta, quanto daqueles que lutavam para se salvar. Por sorte conseguiram um largo carpete, enquanto os homens rolavam no chão eles eram alvejados com baldes e mais baldes de água, abanadas de tecido, tudo tão desesperadamente e violentamente que não havia dúvida que eles estavam se machucando com as “porradas”. Mas foi para melhor… Após um tempo de luta, as chamas se foram… Pelo menos daqueles homens que respiravam com dificuldade e que não estavam feridos de forma letal graças a suas roupas especialmente feitas para esse tipo de situação e seu raciocínio rápido assim que chegaram ao local.
– Estou ligando para uma ambulância… – Disse Mouri. – Agora falta o caminhão…
De fato, faltava aquele que permanecia sem salvação, girando e girando, em meio às chamas.
– Se o caminhão continuar assim vai acertar alguém! – Gritou Shiratori enquanto cobria a visão por causa do calor.
– Temos que guiá-lo para o lugar seguro de alguma forma! – Complementou Takagi.
“Que merda! Como posso fazer algo sem que percebam… A equipe de TV está logo ali…”
– O rio! Tem um rio do outro lado, na direção do banco! – Informou Chiba com o telefone na mão, ainda em ligação.
– Nós sabemos disso! Mas como fazemos o caminhão ir para lá?! Não conseguimos nem se quer chegar perto com essas chamas! – Gritou Megure.
O caminhão continuava a rodar em círculos. Mesmo em pânico os bombeiros devem ter se atentado pela gritaria que se dirigissem as cegas poderiam atropelar alguém… Bravos bombeiros… Acostumados a altas temperaturas, o fogo é o seu maior inimigo e seu maior companheiro. A cada segundo que passava no meio daquele turbilhão, a resistência do veículo diminuía, se aquecesse muito o metal começaria a contorcer e abriria espaço para vazamentos internos… Eles estavam cientes disso tudo, conheciam esse tipo de acontecimento melhor que ninguém… E mesmo assim, eles se recusavam a sair do meio de tudo aquilo com medo de acertar alguém.
– Shiratori! – Gritou Chiba com o telefone na mão. – Estou na linha com os outros bombeiros. Eles estão bem… Eles disseram que podem tentar entrar em contato com o caminhão em meio às chamas através do rádio, mas…
– Mas?! – Pressionou Shiratori.
– Eles não sabem como indicar o caminho…
Essa última frase fazia a situação voltar ao problema inicial. Mesmo tento um meio de entrar em contato, como apontar uma rota de fuga? Sem falar que a rua paralela ao rio não tinha sido interditada por ser uma avenida principal e estar longe das “bombas”.
“Pense… Pense…”
– O BANCO! – Gritou Conan. – Tem um Banco do outro lado não é?!
– Sim… – Confirmou Chiba, sem entender o que isso implicava.
– Ele deve ter um alarme bem alto e escandaloso para o caso de assalto, não é?!
Os policiais finalmente entenderam a lógica da criança e em seguida não precisaram de ordens, sabiam o que tinham que fazer. Takagi informou de imediato que iria ligar para os carros de patrulha para que interditassem o trecho. Shiratori começou a buscar o telefone do banco. Chiba informou o que iria ser feito aos bombeiros, para que mensagem chegasse a aqueles no meio do caos. Megure voltou a ligar para Sato e pediu para que ela, junto com os bombeiros que foram ao ponto dela, fossem para em frente ao banco e se preparassem para não só apagar o fogo, mas também servir de barreira, pro caso do caminhão ir rápido demais.
Tudo ocorreu muito rápido. A polícia mostrou sua competência para a situação alarmante. Quando a sirene do banco tocou, mesmo que parecesse baixo naquela distância, era o suficiente para quem estava dentro da fornalha, apontar o caminhão em uma direção. Era uma ação arriscada… Não dava para saber por onde ele iria passar… Até mesmo um resto de árvore poderia parar a fuga e levar aqueles homens a sua morte. Mas eles acreditaram na estratégia, se seguraram no barulho que vinha de longe e aceleraram. Passaram por meio aos carros que explodiam na rua, indicando que o tempo era extremamente curto! Mesmo feito para as chamas, mesmo sendo um caminhão, ainda é um carro, ainda pode explodir! E a cada explosão próxima o veículo era balançado, perdia velocidade, equilíbrio… Mas o motorista se recusou a cair ali… O vidro da frente tinha estourado, permitindo as chamas a entrarem e queimassem seu corpo. Chamas que era menos vívida que a alma do homem, que de dor e adrenalina gritou enquanto sua mão sentia a borracha do volante derreter e se prender por entre seus dedos… Alma em fúria que se recusou a apagar até sair daquele inferno.
E foi, aos trancos e barrancos como um torpedo que ele se lançou ao incerto. Após um tempo sendo jogado ao ar e quase atravessando o rio por completo, mas impedido ao bater com a frente em outro caminhão que o esperava como barreira. O impacto fez estalar o fogo para todos os cantos, o caminhão que serviu de barreira foi arrastado, ameaçou tombar, mas suportou o impacto e forçou o seu “irmão” a cair com a traseira no rio em um “abraço” acolhedor. Além da água do rio que ao tocar na lataria em chamas soltou uma nuvem de fumaça, uma chuva o molhou, e dessa vez de água pura, sobre sua carcaça e retirando assim seu manto flamejante. Foi um ruído conhecido, quase um pedido de silêncio para que a fúria descansasse.
O homem de dentro do caminhão ficou desacordado, após levar o impacto sobre o “airbag” do veículo que por acaso ainda funcionou e a certeza de que estava seguro e vivo… Vivo para contar a história…
E que história… Caminhões, helicópteros e homens com suas mangueiras jogaram água aos céus por Tokyo naquele dia. Não foi somente perto do estágio, outros pontos estavam em chamas, transformando tudo em um verdadeiro caos vermelho e fervente. Foram 20 horas de luta incessante, não só das forças públicas, mas como da população que se juntou com baldes, mangueiras de lavar quintal, extintor de incêndio, entre outros. Todo esse caos resultou em diversos feridos, os mais graves sendo os quatro homens que correram vivos de dentro das chamas e o motorista do caminhão.
Já amanhecia um novo dia e o cansaço cobriu uma nação que não teria muito tempo para descansar…
“Hoje a noite será a verdadeira partida…” Pensou Conan enquanto se deixava cair sobre a cama na casa do Hakase. “Quase que dá uma derrota… Por hora está no empate… Ah! Que agonia! Eu estou tratando a situação da maneira como ele quer! Como um jogo! Eu tenho que me concentrar no que vem hoje à noite…”

“[…]amanhã à noite em Gomorra[…]”